terça-feira, março 29, 2005

A VELHA SENHORA E A FILHA

"Não sei por que você foi inventar de marcar essa consulta pra hoje".
Pela terceira vez a velha senhora queixava-se à filha. A filha fez uma careta, franzindo os cantos da boca, e desviou os olhos para o televisor ligado. Ainda em casa a mãe começara a cantilena, como se não estivesse convencida de que a consulta fora marcada para aquele dia, graças à desistência de uma pessoa. Não fora isso, ela só seria atendida dali a quase um mês.
O televisor exibia a novela das sete e todos os presentes, à exceção da velha senhora e da filha (esta olharia com a mesma indiferença para um quadro que estivesse no lugar do aparelho) , acompanham atentamente as cenas. A filha, às vezes, olhava para a recepcionista, que, quando não estava ocupada em atender a alguém, tinha o rosto inclinado para o televisor. Por alguns minutos ela conseguiu errar o olhar entre a telinha, a recepcionista e as pessoas sentadas à sua frente. Parecia acreditar que, evitando virar-se para a velha mãe, esta parasse de aborrecê-la com queixas e resmungos. Mas foi como se a velha senhora tivesse concedido uma pequenina trégua, e, ao término dela, retomasse o ataque com uma mais decidida determinação.
"Você está cansada de saber que eu não gosto de sair de casa no dia dos meus anos".
Dessa vez a filha deu um muxoxo, conservando-se calada. Um som de risadas chamou-lhe a atenção para o televisor e ela viu uma cena cômica, que, no entanto, não lhe arrancou sequer um sorriso. As risadas não tinham ainda cessado, quando ela voltou a ouvir a voz da mãe, e foi quase um alívio que sentiu ao perceber que a velha senhora escolhera outro alvo para onde apontar o seu azedume.
"Seu pai continua ignorando o dia dos meus anos. Que custava dar um simples telefonema? Mas não. Ele só tem atenção para aquela sujeita".
Era um assunto a que ela voltava a cada ano, no dia do seu aniversário. A filha aprendera a não mais discuti-lo, porque a mãe achara desde a primeira vez que ela assumia a defesa do pai. Nesse ponto lhe dava razão, pois ficara ao lado do pai - o único dos filhos do casal - na questão daquela separação. No entanto, ela contava com uma arma poderosíssima para enfrentar o assédio da mãe, desde que há uns três anos um dos irmãos deixara de frequentar-lhes a casa, em consequência de uma briga violenta entre a sua mulher e a velha mãe.
"E o queridinho da senhora (assim se referia ao irmão mais velho, e com justiça, por ser, entre todos os filhos, aquele que tinha a preferência do amor da mãe) ? Nem no aniversário da senhora ele aparece lá em casa e a senhora não diz nada".
"Mas o Ronaldo nunca deixa de me telefonar no dia dos meus anos. Já hoje ele me deu os parabéns. Se não vem me visitar, é por causa daquela cascavel".
"Ele não quer é contrariar a mulherzinha dele. O que ele é, é um barriga-branca".
Foram interrompidos pelos acordes da Marcha Nupcial, provindos da televisão. A velha senhora virou o rosto para o aparelho e por um instante concentrou-se na cena de um casamento. Já a filha permaneceu na mesma posição, como se não tivesse ouvido a música.
"Não sei o que o meu filho viu naquela sujeita. Desde a primeira vez que botei os olhos naquela sirigaita que percebi que não era a mulher certa para o Ronaldo. Muito metida, sem educação, a boca suja. E nem bonita é. Ninguém tira da minha cabeça que aquilo foi macumba".
"Ô que bobagem, mamãe", interrompeu a filha, que dessa vez não pôde reprimir um sorriso.
"Bobagem não senhora. Tenho certeza que foi uma macumba e macumba das boas. O meu filho estava quase noivo da Estelinha. Uma moça de ouro. Fina, educada, afetuosa (a nora talhada para a senhora dominar, pensou a filha) e bonita ainda por cima. A Estelinha jamais iria afastar o meu filho de mim. Eu pedi tanto ao Ronaldo pra não casar, mostrei os defeitos daquela mulher, mas não houve jeito".
Uma gritaria no vídeo interrompeu mais uma vez a velha senhora e a fez voltar-se para o televisor, agora acompanhada pela filha. Os recém-casados partiam para a lua-de-mel, saudados por uma pequena multidão. A cena talvez tenha despertado na filha a lembrança de um outro casamento, este na vida real e não concretizado, porque ela disse virando-se para a mãe.
"A ele a senhora pediu e ele não atendeu. Mas comigo a senhora não teve essa consideração. Simplesmente me proibiu de casar".
"E você ainda acha que teria futuro com um casamento daquele? Um pé-rapado, que nem presença tinha".
"A senhora não gostava dele, porque ele era pobre. Mas era um homem bom e me queria bem. E eu também gostava muito dele. Eu é que fui uma besta, não fugindo com ele. Tanto mais que o papai não era contra o casamento, até simpatizava com ele"
"Seu pai? Essa é boa - a velha mãe soltou uma risada, que chamou a atenção de uma moça, sentada de frente para elas. Seu pai o que é, é a falsidade em figura de gente. Tratava bem o seu namorado, mas depois vinha falar mal dele pra mim".
A filha sentiu o impulso de insultar a mãe, revoltada por ela pretender dividir com o ex-marido a culpa pelo casamento irrealizado, mas foi contida pelo receio de causar um escândalo ali na sala de espera, o qual, parecia-lhe, aquela moça estava farejando, pois não tirava mais a atenção dela, desde aquela risada da velha senhora. E talvez essa sujeição às regras sociais, impedindo-a de desrespeitar a mãe, quando já não se sentia mais tão tolhida pelo despotismo dela, tenha lhe revelado, em toda a plenitude, a impotência que marcou toda a sua vida. Por ela jogara fora a chance de viver ao lado do homem que a amava e desperdiçara a sua vida ao lado de uma mulher tirânica.
A mãe não parava de falar, atraindo agora a atenção de outras pessoas, além da moça, já que a novela terminara e ninguém se interessava pelo jornal. De súbito, a filha sentiu uma vontade incontrolável de chorar. Disposta a não resistir às lágrimas, levantou-se para sair em busca de um lugar isolado. Vendo-a se afastar, a mãe perguntou com voz autoritária pra onde você vai? ela respondeu que ia tomar um pouco de ar. "Não demore, que nós já vamos entrar", recomendou a velha senhora, aproveitando para cobrar da recepcionista a vez de ser atendida.
Com os olhos úmidos, a filha atravessava a porta que dava acesso ao corredor, quando sofreu um encontrão com um casal de crianças que, à dianteira dos pais, chegavam alegres e gritalhonas. Passou as mãos pelo corpo dolorido, em seguida foi refugiar-se no fundo do corredor. Despovoado, quase às escuras, aquele recanto favorecia a sua necessidade de desabafo. À sua frente erguia-se uma árvore frondosa. Ali se deixou ficar, chorando baixinho, até ser chamada pela recepcionista. Puxou o lenço e enxugou cuidadosamente as lágrimas. Na sala, a mãe a esperava, de pé. Estendeu o braço para a filha e as duas se afastaram a passos lentos.

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