sábado, setembro 24, 2005

DOIS POETAS


O anugo Horácio Paiva enviou-me um poema do espanhol Antonio Machado (1875-1939), e outro dele próprio . Os dois textos ocuparão, hoje, este espaço. Vamos a eles.

O LIMOTEIRO LÂNGUIDO SUSPENDE

O limoeiro lânguido suspende
uma rama pálida, poeirenta
sobre o encanto dessa fonte límpida
e submersos sonham nela
os frutos de ouro.
É uma tarde clara,
quase de primavera,
morna tarde de março
que o hálito de abril próximo leva:
estou sozinho no pátio silencioso,
buscando uma ilusão cândida e velha,
alguma sombra sobre o branco muro,
uma lembrança no peitoril de pedra
da fonte adormecida, ou, no espaço,
o vaguear de uma túnica ligeira.
Flutua no ambiente dessa tarde
esse aroma de ausência,
que diz à alma luminosa: nunca,
e ao coração: espera.
Esse aroma evocativo dos fantasmas
das fragrâncias virginais e já desfeitas.
Oh, sim, recordo-te, tarde alegre e clara,
quase de primavera,
tarde sem flores, quando me trazias
o bom perfume da hortelã-pimenta
e da boa alfavaca
que em vasos minha mãe tinha à nossa beira.
Que viste eu mergulhar minhas mãos puras
nessa água serena,
para alcançar os frutos encantados
que hoje sonham na fonte que os espelha...
Sim, conheço-te, tarde alegre e clara,
quase de primavera.

ANTONIO MACHADO
Tradução de José Bento


ALMAS

"Animula, vaguka, blandula"
(Adriano)

podem dizer o que quiserem
dessas almas cansadas
sobretudo aquelas
que não se deixam conhecer
chegam de repente
e num átimo somem
e logo recuam
à infância deserta

podem dizer o que quiserem
mas não as quero perder
elas talvez me expliquem
em que mundo vivi
em que horizontes deixei
secar a memória

viveram tão pouco
e ficaram à deriva
neguei-lhes o corpo
que sem forças pediam

de sua vida breve
entre malvões e papoulas
lembro só o perfume
cada vez mais distante
mas outras têm o cheiro
de algum brinquedo antigo

como deixei que seguissem
sozinhas e sem rumo
se ainda para elas
havia a esperança?

...

vejo-as cansadas
e já não assustem
com a sua aura fria
de gastos desafios

HORÁCIO PAIVA
(Do seu livro Navio Entre Espadas - O SOM IMÓVEl, a sair)






domingo, setembro 18, 2005

A QUEDA - As Últimas Horas de Hitler


A Queda (Der Untergang/2004), começa e termina com um curto depoimento de Traudl Junge, que foi a secretária de Hitler, ainda viva à época das filmagens, no qual ela faz um mea culpa sobre o seu envolvimento com o denominado Terceiro Reich. Às suas´palavras iniciais se segue a cena da sua chegada, juntamente com três jovens, a um quartel localizado na Prússia, no meio de uma floresta, onde está Adolf Hitler. As quatro vão se submeter a um teste com o Fuhrer, que irá escolher uma delas para ser sua secretária. Ainda do lado de fora, o rosto de Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) é iluminado por um holofote. Esse detalhe, reforçado pelo depoimento de Traudl, revela a importância que o filme dá à sua pessoa, que só é inferior à do próprio Hitler. De fato, quando a ação de A Queda se instala no bunker em Berlim, onde Hitler está refugiado em abril de 1945, a presença de Traudl é constante. Às vezes com o seu patrão, ela é uma testemunha e uma observadora das últimas horas dele e de seu império, com a invasão das tropas russas. Ela manifesta simpatia por Hitler (Bruno Ganz, numa notável interpretação , em que, dentre outro méritos, há o de ter absorvido o sotaque de Hitler e o tremor da mão esquerda, provocado pelo Mal de Parkinson) numa conversa rápida que tem com Eva Braun (Juliane Kohller). Ela fala da diferença que existe entre Hitler no contato com ela e o homem que diz palavras agressivas a seus oficiais. Ao que Eva retruca que ele só age deste modo quando está na condição de Fuhrer.
Esse comportamento de Hitler com a secretária é mostrado já no teste de datilografia a que ela é submetido. Ele se mostra cordial, chega a fazer uma piada sobre a inteligência de sua cadela, superior, segundo ele, à de alguns dos seus generais. E quando ela fica apavorada por cometer um erro na carta que lhe está sendo ditada, Hitler age com delicadeza, dizendo que essas coisas acontecem e pede que ela retome o teste. Ela, inclusve, é merecedora de um gesto afetuoso de Hitler, na cena em que ele mostra a Eva Braun a droga que os matará. Pede a mesma droga a ele e Hitler apanha-a na gaveta de um móvel, leva-a até ela, Com um afago na mão de Traudl, ele lhe entrega a droga e se lamenta por não poder dar a ela um presente valioso.
E aquele "monstro" tão conhecido, responsável pela morte de seis milhões de judeus, e aquele megalomaniaco que queria construir um novo mundo, é mostrado, algumas vezes, como um homem capaz de gestos afetuosos e delicados, como o afago num garoto , por sua coragem em conter a invasão russa.
Por essa forma de mostrar uma imagem mais humana de Adolf Hitler, A Queda desagradou a muitos espectadores e foi repudiado pela comunidade judaica. Mas o que ocorre é que o filme não pretendeu ser simpático à figura do Fuhrer. Ao lado desse lado humano de Hitler (é preciso mencionar, ainda, o fato de ele ser visto à mesa de refeições com seus auxiliares humildes, como a secretária e uma serviçal), o filme exibe também a sua figura de líder supremo do Terceiro Reich, agredindo e humilhando os seus liderados, a sua megalomania, o delírio de reverter uma derrota a poucas horas de se consumar, não faltando, inclusive, a manifestação do seu ódio aos judeus, numa conversa que ele tem com um dos oficiais. O que ocorre é que o filme evita o lugar-comum de todos os filmes sobre o nazismo, seja feito por cineastas do nível de Chaplin e de Lubitsch, ou por aqueles menores, ou inexpressivos, de expor ao ridículo a figura de Hitler. Isso A Queda não faz. Se em alguns momentos, o espectador, principalmente o da nova geração, pode ficar tentado a sentir uma certa compaixão de Hitler, na maioria das vezes a exposição de cenas de uma forte crueza, de violência, de destruição, não deixa dúvida quanto à confirmação de que ele foi responsável por um dos períodos mais negros da história da humanidade.
A Queda alterna cenas do interior do bunker (estas mais numerosas) com cenas externas, onde duas batalhas são travadas. Enquanto, externamente, observa-se o ataque das tropas russas às
portas de Berlim, lá dentro há a batalha íntima de Hitler, conferenciando com seus comandados, expondo planos que, talvez, nem ele mesmo acredite na sua eficácia, oficiais que tentam, sem sucesso, convencê-lo a deixar a cidade. O diretor Oliver Hirchbiegel, um jovem nascido em 1957, dirige muito bem esse seu terceiro filme feito para o cinema (tem vários trabalhos para a televisão). Mostra muita força e segurança. Apesar do impacto e da crueza de certas cenas, ele quase sempre emprega a elipse para sugerir o suicídio de pessoas. Dois exemplos: o suicídio duplo de Hitler e Eva e o daquele oficial que morre com a mulher e os filhos. Neste se vê o oficial manipulando duas granadas por baixo da mesa de refeições, há um corte para a fachada do prédio, a seguir a explosão e a boneca da filha menor caída no chão. Contando com um roteiro afiado de Bernd Elchinger, cujas fontes são a elogiada biografia de Hitler, escrita por Joachim Fest, e os livros da própria Traudl Junge e de Melissa Muller, ele realizou um filme que nos permite ficar na expectativa de suas próximas realizações.

terça-feira, setembro 13, 2005

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS

1) Por duas vezes John Ford começou um filme e não o terminou. Os filmes foram Mister Roberts (Idem, 1955) e O Rebelde Sonhador (Young Cassidy, 1964), nos quais ele foi substituído, respectivamente, por Mervin Leroy e Jack Cardiff. Os motivos? Bem, no caso de Mister Roberts, foi uma questão de divergência com Henry Fonda, a respeito da concepção do filme. Fonda, que atuara na peça encenada na Broadway, e que fora escalado para trabalhar na adaptação dela para o cinema, tinha uma visão diferente da de Ford. Conforme relata João Lepiane numa matéria sobre o ator na revista Cinemin número 92, de abril/1992, os dois travaram acaloradas discussões durante as filmagens, ao ponto de Ford se aborrecer, pegar o boné e ir embora. E não foi só isso. O desentendimento entre Ford e Fonda resultou no rompimento de uma longa amizade entre eles. Eles jamais se reconciliaram e, evidentemente, nunca mais trabalharam juntos, desfazendo uma parceria formada em 6 filmes, entre os quais o clássico Paixão dos Fortes, de 1946.
Já em O Rebelde Sonhador o afastamento de Ford foi por motivo de doença. Ele trabalhou apenas duas semanas. Me lembro que algum depois do término das filmagens li um depoimento da atriz Julie Christie sobre o filme, em que ela se lamentava pela saída de Ford. E não apenas pelo que este representava na história do cinema, mas porque, segundo ela, o filme foi muito prejudicado pela conduta do seu parceiro Rod Taylor durante as filmagens. Julgando-se uma estrela, Taylor passou o tempo todo dando pitaco na direção de Jack Cardiff, que, passivamente, aceitava a interferência do ator. A bela Julie Christie (na época, muito solicitada pelos produtores) afirmava que isso não teria ocorrido, se Ford tivesse continuado na direção. E ela tem razão. Com o grande Ford, esse Rod Taylor não tirava a conta certa. É bom lembrar que, em ambos os filmes, Ford foi creditado como co-diretor.
2) Em Rashomon, a obra-prima de Akira Kurosawa, entre tantas imagens belas, há aquela do sol aparecendo por entre as árvores. Pois bem. Há uns 4/5 anos li uma matéria no Estadão, escrita pelo crítico e jornalista Sérgio Augusto, na qual este sustenta que essa mesma imagem aparecia no filme O Espadachim, de 1947; portanto, 3 anos antes de ela aparecer no filme do mestre japonês. O filme é dirigido por Joseph H. Lewis, sobre o qual um cinéfilo da nova geração, que me estiver lendo, poderá perguntar quem é esse cara? Pois saiba que esse Joseph H. Lewis foi um diretor de talento, a julgar pelo que dele dizem o próprio Sérgio Augusto (aliás, a citada matéria é sobre ele), Antônio Moniz Vianna (em seu livro Um Filme Por Dia, ele faz uma crítica elogiosa do filme do diretor, Reinado do Terror, 1958 ) e Francisco Luiz de Almeida Salles. Este último, na crítica ao filme A Mulher sem Nome, de 1950, no seu livro Cinema e Verdade, chega a fazer, entre outros elogios ao diretor o seguinte: "Pode-se afirmar, sem nenhuma dúvida, que Joseph Lewis já é agora um dos valores mais indiscutíveis do moderno cinema norte-americano". Dele só conheço Mortalmente Perigosa, (1949), que vi não tem muito tempo na televisão, e pude comprovar que o homem realmente tinha valor.
3) Em entrevista ao crítico francês Michel Ciment, o cineasta Joseph L. Mankiewick se gaba de ter sido pioneiro no uso da imagem congelada. Isso em A Malvada, 1950. Menas a verdade. Quatro anos antes o recurso já fora utilizado em A Felicidade não se Compra. Das duas uaa. Ou Mankiewicz não conhecia o filme de Frank Capra (o que acho pouco provável; muito provável é Kurosawa não conhecer o filme de Lewis), ou mentiu descaradamente.

sábado, setembro 10, 2005

A FOTO



José (nem sei se é esse o teu nome, não guardei o que saiu no jornal, vou, então, te chamar de José), percorreste todos os recantos da cidade, batendo em cerradas portas, usando a tua voz que não podia chegar a ouvidos surdos. À casa regressavas não apenas esfalfado, no rosto os sinais da desilusão, na alma a angústia por não entreveres uma tênue esperança de sair do túnel em que penetraste. Daí advinham as agressões mútuas com a esposa (através de quem entrava o único e magro dinheiro na casa). Das agressões morais vocês passaram às agressões físicas, assistidas pelos filhos, já crescidos. Ela, a tua mulher, com quem deves ter tido horas de um amor que julgavam eterno. Ela, a tua mulher, te culpava pela perda do emprego. No começo tiveste paciência para esclarecer que a expressão "despedido por justa causa", que constava da carta de demissão, não passava de um artifício usado pelos patrões para reduzir o quadro de funcionários. Não foste o único, sempre acrescentavas. No começo. Ela, no entanto, não entendia, ou não queria entender. Deixaste de dar explicações ( a ouvidos encerados, como os dos patrões aos quais pedias emprego), e passaste a devolver as palavras amargas. Tão amargas quanto a cachaça que tresaandavas ao voltar de mais uma peregrinação em busca de trabalho.
E a bebida terminou por subjugar-te. O teu trajeto passou a ser da casa para o botequim, do botequim para a casa. Surrupiavas do parco salário da tua mulher para te embebedares. A tua vida foi caminhando para o abrigo em que afinal despencaste. A casa transformando-se num palco, cujos atores não tinham vocação para representar cenas de tragédia. E sofreste a humilhação suprema de seres preso por interferência de teus próprios familiares.
A tua infância - revelou a carta amarfanhada encontrada num bolso da calça - foi a de um menino pobre, mas feliz. Teu pai não foi um homem rico, ao contrário. Mas não deixou que os filhos passassem privações. As três refeições, pelo menos, não faltavam na tua casa de menino, embora a mesa não fosse farta. Farto o quintal do vizinho, em cujas árvores se dependuravam as mangas, as goiabas, os mamões e os cajus, que ajudavam a complementar a alimentação doméstica. E à fome do momento juntava-se o prazer lúdico de penetrar em propriedade alheia, da qual, por sinal, foste corrido algumas vezes. Mas isso era previsto e fazia parte do brinquedo.
Eras feliz: disseste com tua linguagem escassa e numa caligrafia tortuosa de quem não podia mais dominar os nervos. Mas só o soubeste quando te tornaste um adulto infeliz. E não foste o primeiro - nem serás o último - a ter consciência dessa felicidade numa quadra da vida em que se é deliciosamente irresponsável. Têm-na principalmente os artistas: os grandes e os pequenos.
José, "despedido por justa causa" do emprego, humilhado, faminto, alcoólatra, desamparado pela família e pelos amigos. José, não te restava outra saída. Mas antes de decidires jogar-te do alto daquele edifício, olhaste para o teu passado de menino. A mão trepidante deu o testemunho.
Acompanhava a carta uma foto em que aparecias, sorridente, ao lado da tua mãe. Não sei por que, mas acho, José, que a contemplaste antes de saltares para a morte. E que esse instantâneo da tua infância te devolveu um pouco da perdida felicidade.
- Do meu livro Um Dia.. Os Mesmos Dias, 1983.

terça-feira, setembro 06, 2005

UM CHORINHO PARA VOCÊ


Há mais de um ano publiquei o texto abaixo no Balaio Vermelho, do amigo Moacy Cirne (na época eu nem imaginava em criar um blog). Ele é aqui republicado por não ter, no momento, nenhum assunto novo. Ei-lo.
Na Canindé dos anos cinquenta havia um cinema que funcionava às quintas, sábados e domingos, numa única sessão. A programação era feita, se é que posso confiar na memória, da seguinte maneira: às quintas passava um seriado, complementado, ou por um filme B americano, ou por um western daqueles do Durango Kid e similares; aos sábados e domingos era, geralmente, exibido o mesmo filme, quase sempre do gênero aventura (um exibido com uma certa frequência era Jim das Selvas, com o ex-Tarzan Johnyny Weissmuller), mas, às vezes, aparecia um melodrama, ou uma comédia romântica, que os meninos detestávamos, rotulando-os de "filmes de amor".
Comecei falando da programação do Cine Canindé, mas, na verdade, quero falar é de uma música que, entre outras (poucas, pois a discoteca do cinema era pequena), tocava-se enquanto aguardávamos o início da sessão. Ela conservou-se em minha memória durante décadas, juntamente com outra, intitulada Como os Rios que Correm para o Mar, um samba-canção de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, na voz de Sílvio Caldas. Mas, enquanto com esta música não levei muitos anos para descobrir-lhe o título e os autores, com a primeira (uma composição instrumental) isso só veio a ocorrer há bem pouco tempo.
Pois eu cresci, arranjei trabalho, casei, os filhos vieram, depois os netos, me aposentei, e aquela música não me saía da lembrança, e cadê a oportunidade de voltar a ouvi-la, se não sabia o seu título? Uma vez, faz uns dez anos, cheguei a pensar que a tivesse reencontrado. Ao sintonizar um canal de tevê, estava sendo tocada uma música que me pareceu ser ela, mas nem houve tempo para que tivesse a confirmação, a execução encerrou-se logo depois.
Foi, então, que, no ano passado, assisti a uma apresentação de Paulo Moura num desses canais a cabo. Tive sorte em ligar o televisor um pouquinho antes da apresentação, porque ele a iniciou com nada mais, nada menos do que a música que ansiei voltar a ouvir por tantos e tantos anos. Quase não acreditava no que via, ou melhor, ouvia. E, afinal, fui saber o título e o compositor: Um Chorinho para Você, do pernambucano Severino Araújo, o criador da longeva Orquestra Tabajara, ainda vivo e caminhando para os noventa anos. É possível que a minha satisfação fosse completa se tivesse me reencontrado com esse chorinho na gravação original, que fico pensando se não é da própria Tabajara. Mas é como se diz: não se pode ter tudo na vida. O que importa é que pude gravar a música, na grande interpretação de Paulo Moura, quando o programa foi reprisado uns dois dias depois, e ela está à minha disposição, sempre que sentir saudades daqueles tempos da minha infância. Quando não havia Padre Marcelo, nem Preta Gil, nem Xitãozinho e Xororó, entre tantos outros "cantores".

sábado, setembro 03, 2005

OS MAIORES FILMES DE KUROSAWA E DE KUBRICK

AKIRA KUROSAWA

1. Rashomon (1950)
2. Viver (1952)
3. Dersu Uzala (1975)
4. Os Sete Samurais (1954)
5. Kagemusha (1980)
6. Sonhos de Kurosawa (1990)
7. Yojimbo (1961)
8, Ran (1985)


STANLEY KUBRICH

1. 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968)
2. Laranja Mecânica (1971)
3. Glória Feita de Sangue (1957)
4. Doutor Fantástico (1964)
5. O Grande Golpe (1956)
6. Nascido para Matar (1987)
7. O Iluninado (1980)
8. Lolita (1962)

terça-feira, agosto 30, 2005

BRINQUEDO PROIBIDO


Falando uma vez aqui de filmes que vi na adolescência e que desejaria rever, citei, entre eles, Brinquedo Proibido/Jeux Interdits, que René Clément realizou em 1952. No final eu me perguntava se algum dia teria a oportunidade de rever aquele filme, do qual só me lembrava, vagamente, da presença de um casal de crianças. Pois não é que agora Brinquedo Proibido foi lançado em DVD, propiciando-me a realização do meu desejo!
Embora mostre o horror e o absurdo das guerras (no caso, a Segunda Guerra Mundial, em seus primeiros meses) , ceifando vidas humanas, Brinquedo Proibido mira, especificamente, na questão da morte e no efeito que ela causa a duas crianças, Michel (Georges Poujouly) e Paulette (Brigitte Fossey) . Mas esse efeito, pelo fato de se tratar de seres inocentes, adquire a dimensão de uma "brincadeira", levando os dois a "construir" um cemitério para animais, numa réplica do cemitério para os humanos, ao qual não falta a aposição de cruzes roubadas do cemitério da localidade.
Um reparo que se poderia fazer ao roteiro de Brinquedo Proibido (escrito por Clément, em parceria com Jean Aurenche e Pierre Bost) tem a ver com a atitude de Paulette em relação à perda dos pais, mesmo levando em conta a sua adoção (provisória) pela família de Michel. Ela demonstra não ter sido afetada por aquela morte, ao contrário do que ocorre com a do seu cachorrinho que levava quando são atingidos pelo bombardeio de aviões. Mas, por outro lado, talvez a intenção dos roteiristas fosse a de esvaziar a história de qualquer sombra de sentimentalismo, para evitar o risco do melodrama, em prejuízo da ênfase dada à pureza e à inocência da garota, que, entre outras coisas, desconhece o significado de uma cruz, o que lhe é ensinado por Michel, mais velho e mais esclarecido. Assim, a pureza e a inocência infantis são não apenas preservadas, mas repassadas de uma poesia simples, mas encantadora.
Outro dado a observar no filme é a amizade que se estabelece entre as duas crianças, amizade que talvez se transformasse em amor (aliás, a mãe de Michel chega a fazer uma insinuação a esse respeito) , se a ida de Paulette para uma instituição não frustrasse essa probabilidade. E é ao chegar ali que a garota parece, afinal, adquirir a consciência de perda, no caso a do amigo, quando ouve alguém chamar o nome "Michel". Pensando tratar-se da mesma pessoa, Paulette diz o nome e, pela primeira vez, grita pela mãe morta. Deixa o local onde está e, misturando-se à multidão, vai à procura daquele "Michel", sempre repetindo-lhe o nome. O filme encerra aí, deixando aberta a interpretação para o destino de Paulette.
Se Brinquedo Proibido não chega ao nível de uma obra-prima, mantém a integridade de um grande filme, mais de cinquenta anos depois de realizado. Na época, Clément gozava de um certo prestígio perante a crítica, que atingiu o auge com O Sol por Testemunha, em 1959. Mas nos anos seguintes ele foi perdendo o fôlego e nunca mais foi o mesmo de quando fez Brinquedo Proibido. E hoje parece estar quase inteiramente esquecido.

sábado, agosto 27, 2005

CURIOSIDADES CINEMATOGRÁFICAS


1) Em 1959 o diretor Howard Hawks realizou Onde Começa O Inferno (Rio Bravo), um dos maiores westerns já feitos, o mesmo Hawks que estreara no genero onze anos antes com Rio Vermelho (Red River), mais ou menos do mesmo nível daquele. Onde Começa O Inferno continha um atrativo no argumento, embora não fosse inédito (Ford já o explorara em No Tempo das Diligências, na figura do médico), que era o alcoolismo de um dos xerifes, interpretado por Dean Martin. O filme mostrava ainda a determinação do outro xerife (John Wayne) de livrar do vício o amigo e colega, sobretudo depois que este prende o irmão do poderoso proprietário de terras da região. É uma luta desigual que Wayne trava para manter o homem na cadeia, até que ele seja julgado pelo crime de homicídio, pois, além do xerife alcoólatra, conta só com a ajuda do velho e manco guarda da cadeia e de um jovem vaqueiro. Apesar de tudo, ele sai vencedor e também o outro xerife, que acaba superando o vício.
Pois bem. Em 1967, oito anos depois, Hawks lança outro western, El Dorado (Idem), que, de novo, mostra um xerife alcoólatra (Robert Mitchum). E a causa do vício é a mesma nos dois personagens: ambos são abandonados pela mulher por quem se apaixonaram. E de novo John Wayne procura ajudar o amigo, não só na superação do´alcoolismo, mas na situação que ele enfrenta ao levar para a prisão um poderoso proprietário de terras. (A diferença é que Wayne, agora, é um pistoleiro de aluguel, que passa boa parte do filme com uma bala encravada no corpo). Outro ponto de contato entre os dois filmes é o apelido dos dois jovens (sim, em El Dorado também existe outro jovem, só que não é vaqueiro, como o de Onde Começa o Inferno), que se unem ao xerife na luta desigual, originado de estados norte-americanos: em Onde Começa o Inferno ele é chamado de Colorado, em El Dorado, de Mississipi. Momentos engraçados unem os dois filmes, não fosse Hawks um especialista também em comédi a (Levada da Breca, Bola de Fogo, Os Homens Preferem as Louras). El Dorado não chega ao nível de Onde Começa O Inferno, e essa inferioridade independe da existência do segundo, mas é um filme a que se assiste com prazer e atenção, sendo o penúltimo filme de Hawks.
2) Quando Tempos Modernos (Modern Times, 1936) ganhou as telas do mundo inteiro, Chaplin foi acusado de ter plagiado, pelo menos em parte, o filme de René Clair, A Nós a Liberdade (A Nous la Liberté), feito cinco anos antes. Li isso há anos sem conta, não me lembro quem fez a acusação. Provavelmente algum crítico francês, ou mais de um. O certo é que Clair foi aconselhado a mover um processo contra Chaplin. A reação do cineasta francês foi não só digna, mas de uma reverência e de um respetio inigualavéis a Chaplin. Disse que não acreditava que o genial comediógrafo o tivesse plagiado,mas (atenção), se assim fosse, para ele, Clair, seria uma honra que o seu filme tivesse inspirado o de Chaplin. Tendo a acreditar que este nunca soube, seja da acusação de plágio, seja da atitude de Clair, pois na sua biografia, Minha Vida, não há referência a nenhum dos dois fatos.

terça-feira, agosto 23, 2005

CINE SÃO LUIZ NUNCA MAIS



Foi no site do cineasta Carlos Reichenbach (www.redutodocomodoro.zip.net/) que soube que o Cine São Luiz, de Fortaleza (CE), fechou as portas no último dia 19. Localizado de frente para a Praça do Ferreira, no centro,. o São Luiz era o último sobrevivente de uma cadeia de cinemas de Fortaleza, que marcaram época na cidade nos anos 1950 e 1960 . Quando foi inaugurado em 1958, com o filme Anastacia, (se posso confiar na memória), de Anatole Litvak, com Ingrid Bergman e Yul Brynner, o São Luiz veio se juntar ao Diogo, Moderno, Majestic, Rex, Samburá, Jangada, Araçanga e Tuaçu; os 4 últimos pertenciam à empresa Cinemar (concorrente da Luiz Severiano Ribeiro) , a qual continha uma particularidade curiosa: as denominações dos cinemas eram ligadas a coisas do mar. O novo cinema era o primeiro de Fortaleza (acredito que um dos raros do Nordeste) a possuir sistema de ar-condicionado, mas, em contrapartida, a sua direção impunha ao espectador o uso de paletó, uma prática que se manteve até a década de 70.

Um cinema que fecha é como uma punhalada no coração de um cinéfilo. E me fere mais fundo, no caso do São Luiz, pelo que este representou para a minha adolescência e juventude, como os outros já mencionados. Nele passei horas sem conta vendo filmes que não se fazem mais, me deliciando
com a visão de lindas atrizes que já se foram, ou já deixaram o cinema e, hoje, com o corpo arruinado pelo tempo implacável, vivem à espera da hora final. Foi naquela sala enorme que, numa noite de carnaval, iniciei o namoro com a moça que até hoje vive comigo.
Acho que o São Luiz ainda teve uma sobrevida por alguns anos, enfrentando a concorrência dos cinemas instalados nos shoppings, por servir de local para a mostra do Festival de Cinema de Fortaleza, ou Cine Ceará, como alguns chamam. Porque a sua decadência era flagrante e, segundo me falou um amigo, numa das últimas vezes que visitei Fortaleza, a direção do cinema estava sendo assediada por um dessas igrejas evangélicas que pululam por este país. Talvez seja esse o destino do São Luiz, como ocorre com tantos cinemas que fecharam. Em Natal, o Cine Nordeste hoje abriga uma dessas malfadadas instituições. Mas há a esperança de que o São Luiz se converta num espaço cultural. Na notícia que li no site do Carlão, a própria direção do cinema sugere essa alternativa. Vamos torcer para isso. E assim nas grandes cidades vão desaparecendo os chamados "cinemas de rua". Em Natal não existe mais, em Fortaleza, em João Pessoa existe um que exibe filmes pornô e em Recife ainda sobrevive o São Luiz. Até quando?

sábado, agosto 20, 2005

ATENÇÃO - Por uma "barbeiragem" deste beradero, o conto A Promissória é apresentado nas duas postagens que se seguem. O conto integra o meu livro A Noite Mágica (Editora Ática, São Paulo, 1979);

A PROMISSÓRIA (continuação do texto do post anterior)

Mal sentou, uma voz transmitida por um alto-falante ecoou pelo salão: " Senhor Alexanderson de Almeida Valinhos, . Atenção, Senhor Alexanderson de Almeida Valinhos. Queira comparecer, por gentileza, ao gabinete do Senhor Gerente, no segundo pavimento. Trata-se de um assunto de grande importância. Agradecemos". Pensava estar sofrendo de alucinação. Era a primeira vez que entrava ali, não conhecia nenhum funcionário, nem dera o nome a ninguém. Podia até ser uma brincadeira. De muito mau gosto. Mas a voz tornou a convocá-lo. Instintivo, olhou em direção dos caixas: todos tinham interrompido o serviço e, de braços cruzados, o fitavam ameaçodaramente.
Foi introduzido no gabinete do Gerente pelo secretário. O Gerente estirou-lhe a mão e pediu que o esperasse assinar a papelada. A mão do homem balançava frenética, girando a caneta no papel. Tinha o ar compenetrado do cargo. O paletó sem um botão fora da casa, a gravata o nó bem ajustado, e não era certamente por causa da temperatura, muito mais baixa do que no salão. Durante o tempo que levou assinando, travou uma pequena luta contra os óculos, que teimavam em montar na ponta do nariz. Terminado o trabalho, apertou uma sirene e logo apareceu o secretário para levar os papéis. O Gerente apeou os óculos do nariz, examinou o nó da gravata, derreou-se na cadeira e falou: " O senhor foi chamado aqui para ouvir uma proposta que não está na obrigação de aceitar. Apenas que não a aceitando, estará arriscando a própria vida". O tom das palavras, mais o rosto sisudo do Gerente, revelaram a seriedade da proposta. Alexanderson requereu explicação. "O senhor foi pegado pela mulher de preto. Não pergunte como vim a saber disso, não vai adiantar coisíssima nenhuma. O que interessa é que foi pegado pela mulher de preto. E não escapará das garras dela, se não aceitar a proposta que vou lhe fazer". Alexanderson tartamudeou algo que exprimia a intenção de conhecer a proposta. E embora ali estivesse frio, sentiu o sovaco gotejando de suor. O Gerente ia prorrogando o anúncio da proposta. "Gostaria que o senhor fosse informado que alguns clientes preferiram rejeitar a proposta e tal atitude lhes custou bastante caro. Ainda assim, renovo as palavras do início desta entrevista: o senhor não está na obrigação de aceitar". Deve ter achado que estava gastando muito tempo. Sacou da gaveta uma promissória e entregou-a a Alexanderson. Um choque o valor da promissória. Prendeu-a na mão, o rosto de abobalhado. Depois soltou-a na mesa, arremedou um sorriso e confessou que nunca poderia dispor daquela quantia. Até acrescentou: trabalhando trinta anos, não juntaria tanto dinheiro. Mas era em trinta anos que iria pagar a promissória, o Gerente esclareceu. Só que não poderia atrasar um mês. Um mês apenas que deixasse de pagar e ele seria entregue à mulher. Alexanderson lembrou que poderia morrer até no próximo ano. "Não é problema seu. O Banco está consciente desse tipo de risco que pode correr. Se o Banco não quisesse nunca arriscar, fecharia por falta de negócios". Persuadido, Alexanderson assinou a promissória. O Gerente apertou a sirene, de novo o secretário apareceu. Em seguida curvou-se, a mão desapareceu sob o birô, quando Alexanderson viu foi a parede à direita se abrir para um corredor. Ele e o secretário atravessaram a fenda, e no corredor tomaram um elevador que os deixou no portão dos fundos do prédio. O secretário ordenou ao soldado que deixasse Alexanderson passar, deu a este uma mão de rã e voltou ao elevador.
A chuva se transformara num sol de meio-dia. Alexanderson foi caminhando, de repente: a caneta. Nos bolsos, nada. Esquecera no birô do Gerente A caneta lhe significa muito: presente do maior amigo. Foi bater no portão, explicou ao soldado, mas o soldado tinha ordem de não deixar ninguém entrar por ali. Buscasse o portão da frente.
Dessa vez encontrou-o fechado. Bateu, bateu, bateu, até que uma cabeça desentocou da janelinha. Alexanderson pediu para falar com o Gerente. "O senhor quer dizer o Administrador, não é? Vou saber se pode recebê-lo". E bateu a janelinha. Com pouco a janelinha abriu de novo, mas a cabeça era de outro homem. Perguntou o assunto que queria tratar com ele. Alexanderson falou na caneta esquecida na mesa do Gerente. A cabeça não se lembrava de ninguém que houvesse esquecido uma caneta. Alexanderson, já desconfiado, relatou a experiência vivida, desde a entrada ali pela chuva, até a assinatura da promissória. Teve a impressão de que os olhos do homem se iluminaram quando se referiu à mulher. Confirmado pela suas palavras: "O senhor me diz que viu uma mulher. É uma toda da preto, muito magra? Estranho isso. Ela morava aqui desde a morte do marido. Um dia desapareceu de vez. Nunca mais a vi. Pode ter morrido, mas não está enterrada aqui. Isso eu lhe garanto". E bateu a janelinha. Alexanderson desabalou na carreira, porque voltara a chover.

MA PROMISSÓRIA

A chuva o apanhou em frente ao cemitério. Por um instante a aversão o dominou e lhe fincou os pés no chão. Havia casas por perto, mas a timidez inibia-lhe a vontade de abrigar-se numa delas. Hesitou. A chuva aumentava, já começava a inflar-lhe a roupa ensopada. Sem outra saída, violentou o gênio e atirou-se para o cemitério. Abriu o portão à toda, o transpôs, avistou várias filas de pessoas diante de guichês. Descobriu uma poltrona vazia, caio nela, esperando a chuva passar. Sem um jornal para se entreter, pôs-se a observar o trabalho dos caixas. Eram muitos, os respectivos prenomes inscritos numa tabuleta sobre a vidraça que os separava dos clientes. Lia os nomes até onde os olhos alcançavam. O seu nome estava numa das tabuletas - achou graça na coincidência.
Em uma certa parte de sua vida esteve por trás da vidraça. Não se adaptava ao cargo, mas necessitava de dinheiro. Houve uma vez em que pagou em excesso a um cliente e se enrascou. Os colegas se uniram e lhe emprestaram a quantia que deveria ser reposta em 24 horas. Daí para a frente a tensão não mais o largou. Permaneceu no emprego até o dia em que saldou a dívida. Ouviu uma voz: o senhor me espere para descer comigo. Levantou a vista, viu as costas de uma mulher que caminhava muito apressada. Vestia-se de preto e era excessivamente magra. Correu para alcançá-la, mas num instante perdeu-a de vista. Foi até a porta de entrada, não a encontrou. Continuava a chover, voltou para a poltrona.
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sábado, agosto 13, 2005

UM FILME FALADO



Nesse filme do quase centenário Manoel de Oliveira (95 anos em 2003, quando ele o rodou), não há, propriamente, uma história para contar, e sim a História para ser ensinada à menina Maria Joana (Filipa de Almeida) por sua mãe Rosa Maria (Leonor Silveira), professora, aliás, "distinta professora de História", como informa o letreiro que se segue aos créditos iniciais. As duas embarcam em um navio em Lisboa, com destino a Bombaim (Índia), para se encontrarem com o pai e o marido. Já quando vão saindo de Lisboa, à vista de monumentos, Rosa Maria começa a falar de fatos da história de Portugal, e a "lição" continua sempre que há uma escala interessante na viagem (Atenas, Nápoles, Istambul, Egito), quando deixam o navio e visitam os locais históricos. Mas à medida que vai desfiando os fatos históricos para a filha, que, como as crianças, indaga do significado das palavras que desconhece, Rosa Maria vai também aprendendo. É assim em Atenas, quando um padre da Igreja Ortodoxa vai ao encontro delas e age como um guia histórico só para a professora; é assim diante das pirâmides egípcias, num encontro casual com um ator português. Mais da metade de Um Filme Falado é consumida por essas visitas. E aí torna-se perceptível a intenção do filme de preservar a memória histórica, cultivada pela professora e transmitida à "aluna", esta representando o futuro. Poucas e rápidas cenas são tomadas do navio parado, três delas para mostrar o embarque de três mulheres, que, depois, serão apresentadas devidamente ao espectador.
Quando o filme vai para dentro do navio, vemos reunidos, uma noite numa mesa do restaurante, Delfina, uma mulher de negócios francesa (Catherine Deneuve), Francesca, uma ex-modelo italiana (Stefania Sandrelli) , e Helena, uma atriz e cantora grega (Irene Papas), e o americano, de descendência polonesa, comandante do navio (John Malkovich). Exprimindo-se cada um deles na língua do seu país, iniciam a conversa falando de si mesmos, de suas vidas, de suas profissões, obedecendo a uma espécie de" jogo" proposto pelo comandante. Depois de um certo tempo, passam a falar de política, história, civilização, cultura, com alusões à União Européia, à Torre de Babel, à biblioteca de Alexandria, destruída por um ato inigualável de barbarismo, que, na opinião de Francesca, deu início aos atentados terroristas que persistem até hoje. Parece haver um consenso entre os exegetas de Um Filme Falado , de que esses quatro personagens representariam a União Européia (Delfina e Francesca), o Berço da Civilização (Helena) e os Estados Unidos (o comandante). É possível. Mas arrisco também outra interpretação. Ou seja, que o filme tenha hasteado a bandeira do feminismo, ao colocar as três mulheres, às quais se juntam a mãe e a filha, e apenas um homem entre os personagens principais, cabendo ainda observar que o nome de Malkovich (o de maior prestígio em todo o elenco) vem em último lugar na apresentação dos créditos. Há, ademais, uma fala de Delfina opinando que a União Européia estaria em melhor situação se administrada pelas mulheres, o que parece desagradar o comandante, que, embora sem perder as maneiras de homem bem-educado, lhe pergunta se ela é uma feminista. E ainda a boutade de Helena de que um homem é necessário, nem que seja para fazer parte da mobília de uma casa.
E quando, numa outra noite, Rosa Maria é convidada pelo comandante para a mesa, ela não pode se expressar na língua do seu país, porque só o homem entende o português, por ter passado algum tempo no Brasil. No entanto, Rosa Maria entende o inglês, e este idioma, numa mostra do seu predomínio sobre todos os demais na atualidade ("o implacável inglês", como diz Helena), é que passa a ser usado na conversa. Quer me parecer que, diferentemente da interpretação que li num comentário, a cena não representa a marginalização de Portugal no continente europeu, mas apenas a constatação da inferioridade da língua do país entre as mais faladas no mundo. Ainda assim, bem mais difundida do que o grego, só falado na Grécia, como afirma Helena com certa lamentação.
O final terrível, impactante, com a imagem congelada do rosto do comandante exprimindo o horror e a estupefação ao ver o navio ir para os ares com a mãe e a filha, não me parece de todo desesperador, em meio à conturbação e à violência do mundo em que vivemos. Pois, ao poupar a vida da atriz/cantora (que interpretava uma música tradicional da Grécia, quando o comandante é informado da existência de bombas no navio), talvez aí o filme esteja sinalizando a permanência da arte.

sábado, agosto 06, 2005

.OS DEZ MAIORES FILMES DE JOHN HUSTON



1 = O Tesouro de Sierra Madre (1947)

2 - O Segredo das Jóias (1950)

3 = Os Vivos e Os Mortos (1987)

4 - Moby Dick (1956)

5 - Paixões em Fúria (1948)

6 - Moulin Rouge (1953)

7 - Cidade das Ilusões (1972)

8 - Relíquia Macabra (1941)

9 - Os Pecados de Todos Nós (1967)

10 - A Honra dos Poderosos Prizzi (1985)


NOTA = Relíquia Macabra foi lançado, tanto em DVD, como em vídeo, com o título de O Falcão Maltês, tradução literal do título em inglês.

sábado, julho 30, 2005

ANÍBAL MACHADO



Fausto Cunha, falecido há pouco mais de um ano, foi um brilhante crítico literário. Mas por que começar um texto sobre o escritor Aníbal Machado, falando do crítico pernambucano, que se radicou no Rio de Janeiro? O caso é que Fausto Cunha emitiu uma opinião curta, mas precisa e certeira, a respeito da produção contística de Aníbal Machado. Em seu livro Situações da Ficção Brasileira (Paz e Terra, 1970), num dos capítulos dedicados ao conto, ele diz a seguinte frase: "Aníbal Machado viveu a vida inteira o prestígio de meia dúzia de histórias admiráveis". Nada mais correto. Tendo publicado apenas 13 contos, Aníbal produziu, pelo menos, uma obra-prima, "Viagem aos Seios de Duília", além de uns 5 ou 6 contos notáveis, como "O Iniciado do Vento" (talvez outra obra máxima), "O Piano", "Tati, a Garota", "O Telegrama de Ataxerxes (este com um forte acento kafkiano, embora revestido de um certo humor), "O Ascensorista" e uns dois outros.
"Viagem aos Seios de Duília", na minha modesta opinião, não é apenas um dos maiores contos brasileiros, mas pode, tranquilamente, figurar entre os maiores do conto universal. Que belo trabalho sobre aquele exemplar funcionário público, que sublimou na dedicação ao trabalho a sua solidão, a falta de convívio com as mulheres, a incomunicabilidade. E que jamais se libertou da visão de um seio de Duília, quando ambos eram adolescentes. Ao se ver aposentado, depois de estéreis tentativas de, enfim, "viver a vida", José Maria, mais do que nunca, se volta para aquela visão do passado e decide ir à procura da mocinha que lhe proporcionou, talvez, a única coisa boa da sua vida. No livro que possuo (A Morte da Porta-Estandarte e Outros Histórias, Editora José Olímpio, 1964), há um primoroso ensaio sobre esse conto sublime, escrito por M. Cavalcanti Proença. É uma pena que uma história tão bela não tenha tido a mesma correspondência ao ser levada ao cinema pelo diretor argentino, radicado no Brasil, Carlos Hugo Christensen, que, aliás, filmou outro conto de Aníbal, "O Iniciado do Vento" (no cinema, O Menino e o Vento). O filme não chega a ser ruim, tem algumas qualidades (a interpretação de Rodolfo Mayer, por exemplo), mas fica muito distante do original.
Um dos contos de que mais gosto é "O Ascensorista". Um estudo de vidas humanas, com alguns momentos de humor, narrado na primeira pessoa pelo ascensorista de um edifício, misto de residencial e comercial. É um conto meio longo, como, aliás, quase todos de Aníbal, mas que em nenhum momento induz o leitor ao cansaço ou ao desinteresse. A uma certa altura, em meio às suas reflexões/divagações, o ascensorista solta esta frase onde está contida uma grande verdade: "O elevador é o único transporte gratuito e igualitário da cidade".
E volto a Fausto Cunha, porque tendo a acreditar, depois de ficar um tanto decepcionado com o romance João Ternura, que o talento de Aníbal foi mais bem explorado no conto. Pena que não os tenha produzido em maior quantidade. É verdade que não conheço Cadernos de João, que Moacy Cirne elogiou um dia desses.
Parece que Aníbal era um aficionado de cinema. Ele proferiu uma conferência sobre o tema, intitulada O Cinema e Sua Influência na Vida Moderna, publicada em livro em 1941. É uma rarudade bibliográfica, pois, editada pelo Instituto Brasil-Estados Unidos, não deve ter tido distribuição comercial. Taí um livro que tenho curiosidade de conhecer, pois deve ser, no mínimo, interessante, provindo de um escritor e intelectual do porte de Aníbal Monteiro Machado.

sábado, julho 23, 2005

OS DEZ MAIORES FILMES DE INGMAR BERGMAN



1 - Persona (1966)

2 - Morangos Silvestres (1957)

3 - O Sétimo Selo (1956)

4 - Gritos e Sussurros (1973)

5 - Mônica e o Desejo (1952)

6 - Sorrisos de uma Noite de Amor (1955)

7 - Fanny e Alexandre (1982)

8 - Vergonha (1968)

9 - Quando as Mulheres Esperam (1952)

10 - A Paixão de Ana (1970)

sábado, julho 16, 2005

JOSEPH LOSEY (1909-1984)



O artigo que se segue saiu num jornal local em 15.7.84. poucos dias depois do falecimento do cineasta Joseph Losey. É aqui republicado por me parecer que um diretor da importância de Losey anda um tanto esquecido. Na década de 1960 ele foi muito cultuado pela crítica , e isso num período em que os cinemas da Itália e da França exerciam um grande predomínio artístico, e poucos diretores, como Losey, gozavam do prestígio merecido dos grandes nomes daquelas dois países. É, pois, como uma homenagem a ele, nesses 21 anos transcorridos de sua morte que resolvi lançar o texto neste espaço.
Na carreira de Joseph Losey, falecido em Londres na semana passada, é possível localizar a existência de três fases: a fase americana, a fase inglesa e a fase francesa. A primeira inicia-se com o curta-metragem A Gun in His Hand (1945), ocorrendo, três anos depois, a estréia no longa-metragem com O Menino dos Cabelos Verdes, obra de vigoroso apelo antibelicista e anti-racial, hoje colocada entre os pontos mais altos da biografia do cineasta. Quatro fiilmes depois, entre os quais uma versão do clássico de Fritz Lang, M, O Vampiro de Dusseldorf, a carreira de Losey é bruscamente interrompida pela ação do macarthismo, que inclui o seu nome na famigerada lista negra de Hollywood. Impedido de trabalhar, ele se muda para a Inglaterra. Abre-se, assim, um novo período na vida e na carreira do diretor, marcado, nos primeiros anos, por grandes dificuldades. Mesmo distante da América, ele é obrigado a usar pseudônimo nos filmes que dirige, ou, pior, sofre o constrangimento de vê-los assinados por um testa de ferro. Segundo o crítico Rubens Ewald Filho, , foi decisivo para a carreira de Losey, alguns anos depois, o fato de o ator Dirk Bogarde, de grande popularidade na época, ter aceitado trabalhar em seus filmes. Além disso, o macarthismo estava morto e sepultado, juntamente com o senador que lhe deu o nome.
A década de sessenta presenciou o prestígio de Losey alçar às alturas, graças a títulos como Eva, O Criado, Estranho Acidente, Deus e Pátria. O ápice foi alcançado com a conquista da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1971, com O Mensageiro, um dos filmes mais visualmente belos do cinema. A este sucede O Assassinato de Trotsky, realizado na Itália, e a seguir, aparecem os fiilmes que constituem a fase francesa de Losey, onde se destaca Monsieur Klein, densa e pouco acessível obra sobre a intolerância anti-semita numa França ocupada.
Analisando a carreira de Losey, um crítico notou que os seus personagens masculinos são uns vencidos pelas suas próprias vidas e pelas instituições, contra as quais não podem simplesmente lutar. Essa condição lhes confere sempre uma auréola de mártires, nunca de heróis. Mas essa obsevação, se é válida para os homens que povoam o universo loseyano (e logo me ocorre o escritor de Eva) , não o é para o cineasta. Pois coragem e disposição para lutar foi o que não faltou a esse americano de Winsconsin, que chegou a conviver com Eisenstein e Brecht. Vítima, como os dois, do obscurantismo político, Losey sofreu humilhações, enfrentou dificuldades de sobrevivência, foi expulso de sua pátria, mas jamais abriu mão de seus princípios. E porque aliou à coragem um grande talento, superou as adversidades e inscreveu o seu nome na galeria dos artistas notáveis do século.

sábado, julho 09, 2005

UMA MÚSICA PARA DOIS



Ela imediatamente se virou para o piano, quando soaram os primeiros acordes da música. Por um minuto, mais ou menos, permaneceu com o olhar enfocado no piano, depois voltou à posição inicial. Voltou também ao prato, que abandonara por aquele breve tempo. Ela também interrompera a conversa com o homem que a acompanhava. Parecia estar toda concentrada na música. E o homem, que devia ser o marido, pareceu respeitar o silêncio dela, pois não ousou lhe dizer uma só palavra, até que a música parasse. E eu, que não prestara atenção naquela mulher, que ja começara a comer quando eu me sentara à mesa, fui, de repente, tomado por uma junção de curiosidade e interesse por ela, a partir do momento em que a sua atenção foi despertada pelos primeiros acordes da música. E o meu olhar se deteve naquele rosto, na tentativa de nele descobrir, por trás dos óculos e em meio a algumas rugas, a jovem que conheci há anos sem conta.
E por que foi a música que, ao envolver a mulher daquela maneira, me fez sentir um interesse súbito por ela? Antes preciso fazer uma revelação. Frequentava diariamente aquele centenário restaurante, com exceção dos sábados e domingos, desde que retornara à minha cidade após uma prolongada ausência por força da minha profissão. Há uma explicação. Eu gostava daquela música, e todos os dias ela era tocada, pouco tempo depois de me sentar à mesa reservada para mim. Por um mês, talvez nem isso, solicitei-a ao pianista, mas decorrido esse tempo, certamente percebendo que me tornara um cliente diário do restaurante, o pianista passou a executá-la com a dispensa do meu pedido.
E naquele dia, ao ouvi-la, e vendo aquela senhora partilhar da minha preferência pela música, me lembrei, de imediato, da jovem com quem tive um namoro mais ou menos duradouro. Ela, a garota, ela, a música, nunca saíram da minha mente em todos esses anos. Os dois ouvimos aquela música no mesmo dia em que iniciamos o namoro. Tínhamos ido ao Rex, na matinê dos domingos, assistir Suplício de uma Saudade. Hoje não tenho mais saco pra encarar aquele melodrama, desde que o revi há uns dez anos, mas naquela tarde, ao lado de Loretta, emocionei-me com o romance entre William Holden e Jennifer Jones, tanto quanto a minha primeira namorada, embora, diferentemente dela, consegui resistir às lágrimas quando o filme terminou. Mas, talvez como uma lembrança do nosso amor, iniciado com o filme, se não tenho mais disposição para vê-lo, continuo a gostar da sua música.
Parece que agora estou ouvindo Loretta cantar, a boca chiusa, trechos de Love is a many splendored thing, quando ficávamos juntos num banco de uma pracinha, a mesma onde sempre nos encontrávamos, às vezes assobiando-a. E depois cantando-a em português, quando foi lançada a versão em nosso idioma.
Mesmo depois de encerrada a execução de Love is a many splendored thing, ela permaneceu calada, só falando para responder a alguma pergunta do marido. Umas três ou quatro perguntas, que presumi que tinham a ver com a atitude da esposa. Eu começara a refeição e só desviava a atenção da mulher quando baixava os olhos para o prato. Em uma dada ocasião, uma só vez, ela, ao se virar, como que se deu conta da minha presença, mas o olhar que me endereçou teve a duração de um flash. Pouco depois o marido se levantou para ir ao banheiro. Passou bem perto de mim e pude verificar que era bem mais velho do que supunha ao vê-lo da minha mesa. Observei-o informar-se de um garçom sobre o banheiro e me lembrei da primeira vez em que precisei usá-lo.
Em vez do costumeiro "Homens", ou "Cavalheiros", o banheiro masculino daquele restaurante exibe um retrato, numa pequena moldura oval, de um senhor de uma época antiga, vestido com um paletó e usando um grosso bigode. Já nos das mulheres há um retrato de uma senhora, também de outros tempos, e com o mesmo tipo de moldura.
Continuei com os olhos atentos na mulher, à espera de que a qualquer momento ela virasse o rosto para mim e, dessa vez, me fitasse. E num breve momento acreditei nessa possibilidade. Foi quando um pequenino pássaro surgiu, de forma inesperada, sem ninguém atinar em como tinha entrado ali. A avezinha ficou passeando por aquele pequeno espaço do salão, chamando a atenção de todos que estavam ali por perto. Até que um garçom se dispôs a apanhá-la. só o conseguindo depois de algum tempo. Os movimentos do homem, a corridinha em perseguição ao pássaro, que fugia ao pressentir a proximidade do homem, provocaram risos nas pessoas, inclusive nela. E o seu riso, a forma, me fizeram, de estalo, me lembraro de alguma pessoa. Não me era estranho aquele riso. Podia não ser o da jovem que namorei, mas de outra mulher que passara pela minha vida. Talvez até o de um amigo de um passado remoto. Impossível identificar. De todo modo, conhecera aquele riso. Foi quando acreditei que se virasse para mim, concedendo-me, além do olhar, um sorriso, como alguns presentes o fizeram. Nada. A mulher não alterou a posição de todo o tempo enquanto permaneceu à mesa, com exceção da vez em que a música começou a tocar. Mas a esperança (não dizem?) é a última que morre, e me vali dela para que, ao se levantar para ir embora, a mulher de novo me presenteasse com um olhar, ainda que rápido como uma piscadela. Nem isso. Ergueu-se e deixou a mesa pelo lado oposto ao que me encontrava. Ao se afastar, atrás do marido, pude notar que era um pouco corcunda.

domingo, julho 03, 2005

OS DEZ MAIORES FILMES DE LUIS BUÑUEL



1 - O Anjo Exterminador (1962)

2 - Os Esquecidos (1950)

3 - L' Age d' Or/A Idade do Ouro (1930)

4 - A Bela da Tarde (1967)

5 - O Discreto Charme da Burguesia (1972)

6 - Simão do Deserto (1965)

7 - Um Cão Andaluz (1928)

8 - Viridiana (1961)

9 - O Estranho Caminho de Santiago (1969)

10 - Ensaio de um Crime (1955)




sexta-feira, julho 01, 2005

EXTRA! UMA BELA ESTRÉIA E UM TREMENDO ABSURDO!

Nesta sexta entra em cartaz em Natal o filme A Queda - As Últimas Horas de Hitler. Uma grande notícia a exibição dessa obra do jovem diretor alemão Oliver Hirschbiegel, que tem obtido uma excelente receptividade em toda parte. Assim foi também no Brasil, quando lançado há poucos meses. Por mais de uma vez, em seu blog, Moacy Cirne revelou sua admiração por A Queda, reiterada por uma conversa telefônica que mantivemos, em sua última visita a Natal, onde ele me forneceu maiores detalhes sobre o filme. Mas o que poderia se tratar de uma bela notícia para os cinéfilos natalenses (já tão carentes de lançamentos de importantes obras) , acaba resultando num efeito contrário, motivado por uma atitude absurda assumida pela rede exibidora Moviecom (nomezinho safado, que Moacy pronuncia de outra maneira) . Vejam o absurdo. A Queda será exibido até quinta da próxima semana, numa única sessão. E, como se isso não bastasse, no pior dos horários: às 21:10 horas. Ou seja, um horário que tem tudo para desestimular o espectador de assisti-lo, pois saírá do cinema por volta da meia-noite, enfrentando o risco de ser assaltado, pois Natal não é mais aquela cidade segura e tranquila de quando cheguei aqui. E segundo me informou a funcionária, se o filme tiver boa aceitação, continuará em cartaz depois de quinta e, aí sim, será colocada mais uma ou duas sessões. Ora, bolas. Como é que ele vai ter uma maciça presença de público sendo exibido em uma sessão diária e num horário tão inconveniente? Pelo visto, essa tal de Moviecom acha que o cinéfilo natalense só merece bobageiras feitas pelo cinemão americano, que não tem o gosto, a sensibilidade e a inteligência para ver os grandes filmes. O que dá a seu gesto um significado de discriminação, de desprezo por nós. E eu que esperava ver A Queda nesses próximos dias, terei que esperar o seu lançamento em DVD, que, não deve demorar. E creio que muita gente seguirá o meu exemplo.