sábado, setembro 11, 2010




Por mais de uma razão, que me poupo de revelar, o Luzes da Cidade se despede da blogosfera, após 68 meses em atividade, hoje completados. Um muito obrigado a todas  as pessoas que passaram por aqui,  ao longo desse período, mas ESPECIALMENTE àquelas que nunca deixaram de frequentar este blogue, desde que o visitaram pela primeira vez. E não poderia deixar de agradecer à querida amiga Claudinha, do Transmimentos de Pensações, pela inestimável ajuda que me prestou  sempre  que recorri aos seus préstimos para solucionar algum problema surgido neste blogue. Com o peso dos encargos inerentes  à profissão, acrescidos das obrigações de esposa e mãe, Claudinha sempre demonstrou a maior boa vontade em socorrer este analfabeto, ou quase, da Internet.

Não sairei da blogosfera, só que  agora na condição de visitante, o que farei  com a possível regularidade. Gostei muito da experiência, sobretudo por  ter me proporcionado "conhecer" pessoas da melhor qualidade humana, além de talentosas e inteligentes.   Com elas aprendi muito.
Um abraço para os amigos e um beijo para as amigas.  Um excelente restante de ano para todos.

domingo, setembro 05, 2010

PALHAÇOS

Foto :  Google


Sábado retrasado fui à festinha de aniversário dos dois anos de um neto. Gosto de ir a essas festinhas  por causa das crianças, a visão delas brincando, gritando, se divertindo me traz de volta a infância. Faz-me bem observar aqueles meninos e meninas em sua inocência, inconscientes dos problemas, aborrecimentos e dificuldades que têm os seus pais (é verdade que que estes usufruem o lado bom que a vida oferece). Mas não há dúvida de que é a infância a melhor quadra da vida de uma pessoa e não é por outra razão que o adulto, principalmente o da minha idade, está sempre a relembrar os seus momentos de criança.
Essa última festinha teve a presença de um palhaço, o que deixou as crianças ainda mais animadas e fez este sócio do clube da terceira idade transformar-se, por  alguns instantes, em  uma delas, ao se lembrar da chegada anual de um circo mambembe à sua pequena cidade. O palhaço era a principal atração da meninada, Na verdade, eram dois ou três, que, com as suas brincadeiras, entre si, levavam-nos ao delírio. Claro que eles divertiam os adultos, soltando piadas, muitas vezes impróprias para a nossa idade, mas que não entendíamos e não maculavam a nossa inocência. Um palhaço (talvez o principal)  criava um bordão, ou mais de um, que era repetido no dia a dia dos habitantes da cidade, até mesmo quando o circo ia embora.
Tenho uma lembrança recorrente de um dessas figuras que levam as pessoas ao riso franco e tão saudável, sobre as quais Fellini fez um filme. Era anão, de um moreno acentuado e gordo. Me recordo dele percorrendo as ruas na distribuição de folhetos para a apresentação do circo à noite. Os meninos à sua volta, os mais brincalhões mexendo com ele e a sua reação era fazer alguma graça que nos provocava gargalhadas.
Mas o palhaço, só o sabemos quando crescemos, é, em geral, um ser triste, quando não está no picadeiro ,fazendo as pessoas rirem., e têm que enfrentar a vida lá fora. Há um quadro impressionante do pintor francês Georges Rouault (1871-1958). que mostra três palhaços com uma expressão de tristeza de fazer dó.  Já o escritor argentino Ernesto Sabato, no seu livro de memórias "Antes do Fim", narra um fato que presenciou, quando menino,  e que lhe ficou gravado na memória: o suicídio do palhaço Scarpim y Bertoldito em plena apresentação da peça "Espectros" (segundo o escritor, ele gostava de  interpretar  personagens trágicos), ingerindo uma porção de um veneno, "enquanto o público aplaudia inocentemente".   
Voltando à festinha de aniversário, em dado momento fui ao local onde o palhaço se apresentava. Havia uma "casinha" de madeira, com uma "janelinha", onde aparecia um boneco de engonço. Ao lado havia a coadjuvante do palhaço,  bonitinha e muito jovem. Pela voz do palhaço, o boneco dialogava com a mocinha, cada um deles pedindo a manifestação quando um dizia algo do outro. Todas sentadinhas, as crianças interagiam com a dupla. Fiquei observando atentamente aquele espetáculo e, confesso, me emocionei. Me emocionei ao ver aqueles meninos e meninas que, por alguns momentos, tinham deixado de lado os video games  e a televisão (e, alguns, talvez, até a Internet) para assistirem a algo novo para eles,  um divertimento  que extrai  o seu encanto através  da simplicidade,   até mesmo, diria , de uma  certa simploriedade,  e com  isso acontece a comunicação com a plateia. Eles que, ao contrário dos avôs, jamiais entraram num circo (jamais entrarão) e se depararam, entre outros atrativos,  com a arte do palhaço.  

domingo, agosto 29, 2010

A GRETA GARBO DO JAPÃO

 Setsuko Hara em "O Idiota", de Akira Kurosawa (1951)


Em 1963 a atriz japonesa Setsuko Hara decidiu abandonar o cinema. Tinha 43 anos e 28 de carreira,  iniciada em 1935.  E por ter o seu filme de estreia no cinema alcançado  um enorme sucesso, a companhia produtora achou por bem mudar o nome da atriz (Masae Aida) para Setsuko, o mesmo do personagem que ela interpretava. E como Tetsuko Hara, a atriz, mercê do talento e da beleza, transformou-se, no correr dos anos, em uma das mais queridas e admiradas pelos cinéfilos e críticos do Japão. Por causa disso, a sua aposentadoria precoce deixou  os fãs chocados, perplexos e assim como órfãos.Para piorar, a justificativa que ela apresentou não os convenceu e até - possibilidade em que  eles próprios jamais pensaram - lhe fizeram sérias críticas.  A esse respeito, eis o que escreveu o crítico Donald Richie (1): "Não teve a polidez de criar uma ficção relativa a problemas de idade - ela tinha apenas 43 anos - , a saúde debilitada, algum desejo ardente de se entregar a obras de caridade, a um mandamento espiritual de entrar para um convento. Nada disso - apenas uma declaração que soava como a verdade nua e crua".  A justificativa de Setsuko foi que "nunca havia gostado de fazer filmes, que os fizera meramente para sustentar uma família numerosa, que nada de seu desempenho como atriz lhe parecera bem e, agora que a família estava em boa situação, não via razão para continuar fazendo algo que não a interessava". Essas palavras feriram fundo os seus fãs, como uma punhalada nas costas. De repente, eles se sentiam como que logrados ao amar uma atriz que revelava que exercera a sua profissão não por vocação, mas como uma forma de dar sustento a uma família. E aí, de amada, ela passou a ser odiada. E entre os ataques  que recebeu, houve inclusive o que fazia insinuação sobre a sua sexualidade. É que Setsuko nunca casou, nunca se soube de nenhum caso amoroso seu, tudo indicando que mantém a virgindade até hoje, já velhinha, com 90 anos completados em junho passado.
Essa entrevista marcou sua última aparição em público. Tornou-se uma reclusa, só saindo para fazer compras e  em sua casa só recebia as poucas amigas. E quando um jornalista, descobrindo a sua casa,  aventurava-se a ir procurá-la, tinha a porta fechada na cara. A sua experiência no cinema ensinou-a  manter-se a uma estratégica distância dos fotógrafos, de maneira que nas fotos tiradas  Setsuko não aparecia com a nitidez que  comprovasse que ela era mesma a fotografada. Nos primeiros anos de aposentadoria recebeu ofertas  milionárias da sua produtora para voltar a trabalhar, mas recusou todas. 
Também em 1963 ocorreu um importante fato com outra pessoa ligada ao cinema: a morte de Yasujiro Ozu, no dia em que faria 60 anos. Ele foi um dos três maiores diretores do cinema japonês (há os que o consideram  o maior deles), ao lado de Kenji Mizoguchi e Akira Kurosawa. Setsuko Hara foi a atriz preferida de Ozu, com quem fez 5 filmes, entre eles as obras-primas "Pai e Filha" (1949) e "Contos de Tóquio" (1953), sobre as quais escrevi aqui. Pois bem. A atriz comunicou a decisão de se retirar do cinema poucos dias depois da morte do diretor. Teria essa decisão repentina  e nunca esperada a ver com a morte do cineasta, que também nunca casou, vivendo na companhia da mãe viúva? Ou foi uma simples coincidência?   Não sei  se, no Japão, alguém tenha levantado a hipótese de exisitir uma relação entre os dois fatos, mas sei que por lá circula a informação de que Setsuko mora em Kamakura, região que faz parte da grande Tóquio, na qual foi rodado "Pai e Filha" e onde se encontra o túmulo de Ozu.

(1) Publicado no livro "Emoção e Poesia - o cinema de Yasujiro Ozu", edição do Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 2010. 

domingo, agosto 22, 2010

15 FILMES DE GRANDE FINAL (3) *

O garoto Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) no final de Os Incompreendidos.


- Glória Feita de Sangue (Stanley Kubrick)
-  Mephisto (Istvan Szabo)
-  O Delator (John Ford)
-  Na Teia do Destino (Max Ophuls)
-  A Conversação (Francis Ford Coppola)
-  Fale com Ela (Pedro Almodóvar)
-  Ladrões de Bicicletas (Vittorio De Sica)
-  Os Esquecidos (Luis Buñuel)
-  A Época da Inocência (Martin Scorcese)
-  Os Incompreendidos (François Truffaut)
-  Ser ou não Ser (Ernst Lubitsch)
-  Verão Violento (Valerio Zurlini)
-  O Eclipse (Michelangelo Antonioni)
-  Punhos de Campeão (Robert Wise)
-  Teorema (Pier Paolo Pasolini)


* Sem ordem de preferência.



"ALÔ, MinC


É pena. O Cine Edgar, único de Cataguases, MG, terra de Humberto Mauro, que exibiu ali o seu primeiro longa Na Primavera da Vida, em 1926, está para virar... supermercado.
Uma turma fez um curto manifesto que será exibido em canais abertos e em festivais".
(Ancelmo Gois em seu blogue Ancelmo com, em O Globo, edição de 17.08.10.)
 


                         

 

sábado, agosto 14, 2010

DA JANELA

Foto : Google



Tenho o costume de ficar à janela do meu "escritório", observando o que se passa lá fora. No verão, quando o sol e o calor me obrigam a saltar mais cedo da cama, vou para a janela e vejo pessoas, muitas pessoas, fazendo a sua caminhada. Vêm sozinhas, em grupo, e há delas que vão trotando, ou até correndo. Gente de várias idades. Mais tarde, depois de dar uma passada pelo computador e tomar o café, volto à janela. As funcionárias de um escritório de advocacia vão chegando, uma a uma,  para o trabalho. Usam o mesmo tipo de vestuário, como se fosse um uniforme. Se chego um pouco antes, ainda consigo ver adolescentes dos dois sexos indo para a escola. A rua já se faz barulhenta, com o trafegar de ônibus, carros, motos e suas buzinas. E gente passando apressada para enfrentar a luta cotidiana.
No inverno, em dia que chove forte, o trecho da rua se transforma em um pequeno rio. Os veículos trafegam com cuidado, mas já vi um ou outro que não conseguiu atravessar o aguaceiro e ficou ali parado. Mas se a chuva não é prolongada, pouco tempo depois a água é escoada, restando apenas a lama.

Veem-se coisas curiosas, bizarras. Uma vez apareceu uma mulher, já bem entrada em anos, fazendo a sua caminhada vestindo um... maiô! Tibes! Outra vez, era feriado, um cavalo permaneceu um bom tempo "pastando"
                                                                                                                      
em um canteiro, indiferente à passagem de veículos, Fiquei observando aquele animal, que devia estar se sentindo em um local tão diferente daquele a que está acostumado. Tive que atender um telefonema e, ao volta, o cavalo tinha ido embora. Talvez estivesse em outra rua, atrapalhando o curso dos veicúlos, disputando lugar com aquelas coisas estranhas e barulhentas.
Ainda estamos na época das chuvas, embora elas já não apareçam com muita frequência. E que prazer sinto quando, noite avançada, estou a ler um livro na minha cadeira de balanço, escutando o som da chuva! Em certo momento suspendo a leitura, me levanto e vou para a janela. A água caindo por sob a luz dos postes proporciona uma visão de pura beleza. Olho para os dois edifícios vizinhos, à minha frente. Estão quase às escuras, só em três, quatro janelas vê-se a claridade de um aparelho de televisão. E prazer maior sinto quando vou me deitar e a chuva continua, mantendo o friozinho gostoso, convidando- me ao sono.

domingo, agosto 08, 2010

AS IRMÃS SOBRAL


Eram sete irmãs: Filó, Joaninha, Naninha, Francisquinha, Mercês, Maria e Belinha, as duas últimas não alcancei. E dois irmãos, Manoelzinho, que também não conheci, e João. Ou mestre João Sobral, como alguns o chamavam, por fazer parte da banda de música da cidade, aliás, o líder, o chefe. Todas morreram solteiras, como também o Manoelzinho. João parecia fadado a ter o mesmo destino das irmãs e do irmão, mantendo um namoro que se arrastava por anos sem conta, até que um dia decidiu casar. Já passara dos cinquenta, mas, graças a ele, a família Sobral não morreu sem deixar herdeiros.
A minha família e as Sobrais estabeleceram um vínculo duradouro, iniciado pelo fato de serem vizinhas durante muitos anos. As duas casas ficavam na rua do Fogo (assim chamada, ao invés do nome oficial, que nem lembro qual era) e lá aquelas solteironas moraram a vida inteira. Dentre elas, no entanto, foi a Filó quem teve uma relação mais forte com a minha família, baseada na afeição que teve com a Sônia, a mais nova das minhas três irmãs, desde que esta nasceu. Contou-me um irmão, bem mais velho do que eu .que, até aí pelos sete anos da Sônia, era a Filó que a colocava para dormir, balançando a rede e cantando até fazê-la cair no sono.
Filó era, delas todas, a que mais dava motivos para o divertimento das pessoas. O principal desses motivos era o seu desejo de casar, que, parece, não era compartilhado pelas irmãs, pelo menos de forma manifesta. Houve dois casos que mais atiçaram os brincalhãos: o assédio por ela feito a dois rapazes que vieram morar em Canindé, com uma diferença de alguns anos. Os dois acabaram se casando com outra. E no caso do segundo, a frustração da Filó deve ter sido pior, pois a escolhida foi uma moça já trintona, que talvez já tivesse perdido a esperança de não sair do caritó. Pobre Filó, que queria tanto bem à minha irmã, como a uma filha! Além da idade avançada, faltavam-lhe atributos de beleza e, para piorar, entremeava as conversas com um desagradável fungado.
Por ser muito criança, não me lembro da fase em que as irmãs Sobral se viciaram no jogo do bicho, soube disso por esse mesmo irmão, que recheou o fato com detalhes, como o da circulação de uma quadrinha anônima, que dizia assim: "As Sobrais não rezam mais/Não se lembram mais de Deus/De manhã, 'que bicho dá'?/De tarde, 'que bicho deu' "? E ele, se aproveitando da minha pouca idade, me instruiu a responder à Naninha, quando ela me pediu certa manhã um palpite sobre qual o bicho que ia dar naquele dia, que seria o rato, um animal que não existia no jogo do bicho. Naninha parece que, delas, era a mais vulnerável ao vício. Era meio antipática, algo irritadiça e tinha no rosto um sinal preto e um tanto volumoso.
A minha Sobral preferida era a Joaninha, que era a mais bonita delas. Quero crer que gostava dela porque ela se afeiçoou a mim, desde que nasci, tal como aconteceu com a Filó em relação à minha irmã. Já mais crescido, aparecia no seu local de trabalho e ela sempre tinha algum mimo pra me dar, às vezes, até um dinheirinho. Quando rapaz, já trabalhando, quando ia a Canindé nunca deixava de visitá-la. Calma, falava baixo e pausado, tão diferente da Filó.
As irmãs Sobral se destacaram na paisagem humana da minha cidade, como tantas e tantas outras, das quais a gente se lembra com saudade.

domingo, agosto 01, 2010

FILHOS DO PARAÍSO (Bacheha-Ye aseman/1997)




Já em suas imagens iniciais, "Filhos do Paraíso" anuncia o móvel que norteará a sua história: um sapateiro consertando o par de um sapato feminino, a ele levado pelo garoto Ali (Amir Farrokh Ashemiar), pertencente à sua irmã Zahra (Bahare Saddigi). O extravio do sapato, que é recolhido pelo lixeiro na loja em que Ali está para comprar batatas, irá acarretar um grande problema para as duas crianças. Para Zahra, porque, sem o sapato, não poderá frequentar a escola, e , para Ali, responsável involuntário pela perda do objeto, porque teme que a irmã cumpra a ameaça de contar ao pai o sucedido. E a partir daí, os dois irão passar por situações impróprias para a sua idade, vivenciando-as como se já fossem adultos.
Esse precoce rito de passagem da infância para a idade adulta é a principal qualidade desse filme iraniano dirigido e escrito por Majid Majidi. Há o constrangimento inicial de Zahra de usar o tênis do irmão entre suas colegas que usam sapatos próprios do seu sexo, até ela ver que umas poucas também calçam o mesmo sapato e ainda receber o elogio da professora. O problema maior é para Ali, que tem que esperar a volta da irmã da escola, para com ele ir para a escola. Quando Zahra demora, ele chega atrasado para as aulas e é admoestado pelo diretor. Na terceira vez, o diretor não o deixa entrar e é preciso a intervenção de um professor para que ele não volte para casa.
Esse "amadurecimento" dessas duas crianças as torna pessoas tristes, que não brincam, principalmente o garoto. Há uma brincadeira entre elas quando lavam o tênis, divertindo-se com a formação de bolas de água, que, sopradas, se espalham no ar, proporcionando um momento bonito até mesmo plasticamente.
A água, aliás, tem uma presença destacada no filme, exercendo provavelmente uma função simbólica. Ela está no final - um final bem elaborado, com os pés feridos de Ali pela corrida organizada pela escola, da qual ele sai vencedor (um vencedor, paradoxalmente, frustrado porque ele almejava o terceiro lugar, cujo prêmio era um tênis, que iria presentear a irmã) mergulhados na água e tocados pelos peixinhos.
A correria de Ali (sobretudo) e de Zahra, para que o primeiro possa chegar a tempo à escola, é também um elemento simbólico, culminado pela apresentação da corrida. É o esforço físico despendido para superar as suas condições de vida, tanto mais difíceis em países, como o Irã, onde os ricos são mais ricos e os pobres ainda mais pobres (o pai deles sobrevivendo de eventuais serviços, devendo à mercearia e ao proprietário da modestíssima casa). Por sinal, há uma sequencia em que é mostrada essa desigualdade social e econômica, quando Ali e o pai vão de bicicleta à parte de Teerã onde vivem os muito bem sucedidos na vida, à cata de um serviço de jardinagem.
"Filhos do Paraíso" é um filme que emociona, comove, mas que consegue muito bem driblar o sentimentalismo e a pieguice. Afirma a posição do cinema iraniano entre os melhores cinemas do mundo atual, apesar das dificuldades por que passam os seus cineastas para levar adiante os seus projetos. Dificuldades não apenas financeiras, mas também (e certamente a mais grave) motivadas por uma censura vigilante e forte. Mas eles (os diretores) vão em frente, como esse Majid Majidi, que fez um belíssimo filme, com qualidades que incluem a de extrair um grande desempenho do casal infantil. E como se sabe, não é tarefa fácil dirigir criança.

domingo, julho 18, 2010

E SE...






Há uns dez minutos ele está observando a mulher em seu sono intranquilo, a remexer-se, ora virando-se para o lado, ora voltando à posição de costas para a cama. A nudez da mulher é resguardada apenas pela calcinha branca, mas esta, transparente e bem ajustada ao corpo, deixa-lhe quase exposta a bunda, quando ela está de costas para ele. Enquanto a observa, ele procura precaver-se de qualquer sinal que o indique estar desperto, estático naquela posição, para que a mulher não acorde do sono inquieto e venha tirar-lhe a concentração nas palavras que ela disse há pouco, quando seus corpos estavam entrelaçados.
Pouco depois sentiu vontade de urinar. Levantou-se e, com cuidado para não fazer ruído, foi para o banheiro, à sua esquerda, a três passos da cama. Ficou sentado no vaso, para continuar olhando para a mulher, cujo corpo conseguia distinguir graças a um pouco da iluminação vinda da rua atráves da porta aberta do pequeno terraço, à direita da cama. Quando terminou de urinar, decidiu deixar o quarto. Palmilhou-o silenciosamente, tendo a mesma cautela ao abrir a porta. Ao passar pelo quarto das crianças ouviu o ressonar de uma delas. Na sala de visitas, dirigiu-se à janela e abriu-a. Uma aragem invadiu a sala, tocando-lhe o rosto, e ele sentiu um inesperado prazer, como se recebesse a carícia de uma mulher. Lá em baixo a rua estava silenciosa e deserta, tão diferente das horas do dia.
A pergunta da mulher voltou a assediá-lo. "E se eu gostasse de trepar com ele, o que é que você fazia"? Não entendia a razão de conferir um valor real àquelas palavras (ao ponto de lhe roubarem o sono), se fora ele que as criara para a mulher dizer. Como outras sem conta, ao longo daquele casamento. (Desde os primeiros dias de casados, acostumara a mulher a falar certas coisas durante o ato sexual. Isso o deixava excitado.)
Mas, na verdade, fora o procedimento da mulher naquela noite que o perturbava. Ela fizera a pergunta, como ele ordenara, ele não disse nada, e foi aí que acontecera o inesperado: ela repetiu a pergunta, com uma pequena variação. "Hem, e se eu gostasse da pinta dele, o que é que você fazia"? A pergunta era a mesma. Mas estranhou que ela a repetisse, parecendo-lhe demonstrar um interesse incomum, e ficou com a sensação de que o seu silêncio (também um fato inédito nos jogos entre eles) tenha-a levado à desconfiança de que ele não estava simulando naquele momento; e sendo assim, ela quisesse saber como ele reagiria a uma situação real e não apenas imaginada para tornar mais excitante o ato sexual. Pensou em pedir-lhe, na hora e depois de terminarem, que esclarecesse a razão da segunda pergunta, mas se conteve.
E agora estava ali insone na madrugada longa, olhando a rua, pela qual passava um carro em marcha lenta, como se o motorista não quisesse ferir o silêncio. Quis consultar o relógio, esquecendo que o deixara no quarto. Sabia que não era muito tarde, mas que o sono já não viria sem a ação de um medicamento.
Ao ir pegar o remédio no armário do banheiro, encontrou a mulher saindo de lá. Tinha vestido uma blusa, talvez para se proteger do vento nas costas. "Perdeu o sono, bem"? Ele disse que sim e que ia tomar um sonífero e ver um pouco de televisão. Quando ainda estava no banheiro, ouviu-a soltar um longo bocejo.
Dia seguinte, como de praxe, ele saiu com a mulher e os dois filhos. Deixou primeiro os filhos na escola, depois a mulher no trabalho. Se beijaram, disseram tchau, a mulher saiu do carro, ele ficou observando-a afastar-se. Ao passar por um homem, este se virou e pôs-se a olhar para ela. Lá do carro ele não despregou os olhos do estranho, que só retomou a caminhada quando ela entrou no prédio. Ligou o carro e foi embora.

domingo, julho 11, 2010

ADÚLTERA (Le Diable au Corps/1947)




Também o título do livro, do qual o filme é adaptado, "o diabo no corpo" é a forma impetuosa, indomada e avassaladora com que dois jovens se entregam a uma relação proibida pela sociedade. E no caso de "Adúltera" (título que, além de buscar o apelo comercial, parece soar como uma atitude discriminatória contra a mulher), existe o fato de o traído ser um combatente na Primeira Guerra Mundial, já perto do seu término. Ao ser lançado em 1923 (no mesmo ano do falecimento precoce, 20 anos, do escritor Raymond Radiguet) o livro foi duramente criticado pelas ligas de ex-combatentes, por essse motivo, e considerado por outras pessoas de um "cinismo maquiavélico". E talvez a advertência feita logo após os créditos iniciais do filme, de que "os personagens desta obra cinematográfica, em sua juventude impetuosa e, às vezes, cínica, exprimem os sentimentos de alguns jovens (o grifo é meu) cujos espíritos foram tomados pela confusão que, de 1914 a 1918, estremeceu o Mundo", tenha tido a intenção de protegê-lo de condenações ainda mais fortes, tendo em vista que a França, e, por extensão, o continente europeu, ainda sofria os efeitos de outra guerra, terminada dois anos antes. Ou seja, o comportamento daquele casal jovem não exprimia a totalidade de pessoas da sua faixa etária.
Devido à condição de Marthe de uma mulher casada, essa relação que subjuga os dois amantes é feita de sobressaltos, de extremos cuidados com a exposição deles à curiosidade e maledicência humanas. François penetra na casa de Marthe como se fora um ladrão. O único momento de tranquilidade é no passeio pelo rio, de barco, quando ele adormece no colo da amante.
É, assim, um amor fadado ao fracasso, cujo símbolo é a morte de Marthe. Por sinal, o diretor Claude Autant-Lara se serve de alguns símbolos para narrar a história dessa paixão avassaladora. Entre esses, a lareira que arde quando os dois consumam o primeiro ato sexual; a presença de grades diante de François - um recurso que usadc om certa frequência faz atenuar a sua eficácia no filme, que se não atinge um nível dos mais altos, possui muitas qualidades, por conta de alguns bons momentos, como quando Marthe revela ao amante que está grávida: depois de dizer que tem uma grande novidade para lhe contar , ela aproxima a boca dos ouvidos dele. Outro é quando Marthe, nos estertores da morte, confunde a mão do marido com a de François e diz o nome deste, enquanto a mãe esclarece o genro de que ela está se referindo ao filho que não irá nascer.
"Adúltera" é também valorizado pelas interpretações de Gerard Philippe e Micheline Presle. Na história ela é mais velha, enquanto na realidade eles nasceram no mesmo ano de 1922. Grande ator e boa pinta, Gerard Philippe teve uma vida curta, falecendo a poucos dias de completar 37 anos. Já a atriz está viva, aos 88, e, ao que parece, ainda em atividade.

sábado, julho 03, 2010

DONA MERCEDES


Vez por outra ela me vem à lembrança. Dona Mercedes. Foi a minha primeira professora. Ensinava na casa onde morava com as filhas (era viúva), três ou quatro. Gorda, baixa, usava óculos. Pelo que me lembro, não era severa, embora puxasse muito pelo aluno. Usava um método prático e atraente de ensinar certas letras, como, por exemplo, o "t", do qual dizia que era um homem levando um carreto na cabeça. (Minha mãe por muito tempo contou isso às pessoas e o fazia sempre rindo.)
Alguns anos depois de ter sido seu aluno, fomos morar numa casa vizinha à dela. Mamãe gostava muito de Dona Mercedes e a visitava uma vez por outra. Me lembro de quando ela morreu. Teve que ir para Fortaleza, pois estava com um grave problema de saúde, parece que com câncer. Voltou num caixão. Quando o caminhão que transportava o caixão passou por nossa casa, alguns de nós estávamos reunidos no alpendre. Sem poder conter a emoção, os olhos úmidos, minha mãe falou que Dona Mercedes já ganhara o Céu. No seu velório, que não me lembro de ter comparecido, ocorreu um fato que, embora constrangedor, teve um componente de humor. Alguém foi apresentar os pêsames a uma das filhas, atrapalhou-se e deu os parabéns. Mas de imediato percebeu a imperdoável mancada e, demonstrando uma admirável presença de espírito, acrescentou que os parabéns eram por a moça ter tido uma mãe com as qualidades e virtudes de Dona Mercedes...
A gente jamais se esquece da primeira professora. É assim como a primeira namorada, a primeira transa. Naquele samba de Ataulfo Alves, "Meus Tempos de Criança", a letra fala de "saudade da professorinha, que me ensinou o bêabá". (Aliás, o último verso da letra contém um dos grandes achados do nosso cancioneiro popular: "Eu era feliz e não sabia". Em um verso de um poema seu, Fernando Pessoa diz algo semelhante.)
Eu não só nunca esqueci Dona Mercedes, como não me lembro das outras professoras que tive na infância. Espera aí. Me lembro também de Dona Elva, quando já estudava no grupo escolar. Uma mulher até certo ponto bonita, alva, corada, olhos de um verde claro (se a memória não estiver me pregando uma peça), casada com um irmão do proprietário do Cine Canindé. Mas é uma lembrança que me ocorre de maneira esporádica e sem o vigor e a saudade que tenho de Dona Mercedes.

domingo, junho 27, 2010

O CINEMA E EU

Virginia Mayo (1920-2005), um
dos meus amores cinematográficos.



Eu assistia, no cinemazinho da minha cidade, aos faroestes de Durango Kid, Johnny Mac Brown, Roy Rogers, Rocky Lane, Bill Elliott, entre outros. Eu assistia aos seriados, e por uma semana ficava roendo as unhas à espera do próximo episódio, para saber como o mocinho iria se livrar do perigo. Eu assistia a Jim das Selvas, com o ex-Tarzan Johnny Weissmuller, que substituíra a quase nudez por um silaque. Uma vez ou outra passava um filme romântico, que os meninos chamávamos de "filmes de amor" e os detestávamos, saindo no meio da sessão. Eu assistia, eu assistia...
Chegou a adolescência e fui estudar na capital. Muitas salas de cinema. Nelas a descoberta de outras espécies de filmes. E também de outros atores: Burt Lancaster, Kirk Douglas, James Mason (que elegi o meu ator preferido), Gregory Peck, William Holden, Marlon Brando, Paul Newman e outros, muitos outros. E, sobretudo, a de belas atrizes: Ava Gardner, Virginia Mayo, Audrey Hepburn, Sophia Loren, Brigitte Bardot, Jean Simmons, Claire Bloom, Maureen O'Hara, entre tantas. Algumas amei para sempre e quando uma delas se foi, eu senti a sua perda como a de uma pessoa muito íntima.
Eu era um adolescente que babava, feito uma criancinha, vendo a maioria daqueles filmes, daqueles atores, daquelas atrizes. Com o passar dos anos, no contato com pessoas mais velhas, lendo no jornal críticas sobre filmes, percebi que estes eram feitos não só para a busca do lado lúdico do espectador, nem para explorar-lhe o sentimentalismo. Não, havia um tipo de filme engajado na visão crítica da vida, das pessoas e dos seus sentimentos - um cinema de ideias, como dizia Fellini; e paralelamente a esse conteúdo, havia a preocupação pela forma de narrá-lo, em oposição à dos filmes que tinham a bilheteria como único objetivo. (Verdade que, como me dei conta depois, e isso ocorria sobretudo no cinema americano daqueles tempos, havia filmes que conseguiam conciliar o gosto da crítica e do espectador comum, embora por motivos diferentes.)
Minha visão crítica evoluiu com a minha vinda para Natal, no convívio com alguns sócios do Cineclube Tirol, ao qual me filiei. Também me iniciei na leitura de livros sobre cinema e prossegui na leitura dos grandes críticos dos anos 1960 que escreviam nos jornais do Rio.
Mas ainda vejo (hoje nessa grande invenção que é o DVD) alguns daqueles filmes da minha fase de adolescente. E não deixo de me lembrar das sessões do Cine Canindé. Foi lá que começou o meu amor pelo cinema.

sábado, junho 19, 2010

UM TEXTO DE JOSÉ SARAMAGO

O escritor português, ganhador do Prêmio Nobel, que
faleceu na última sexta, aos 87 anos. Abaixo o artigo que
ele publicou, em l8.05.09, no saite http:://caderno.josesaramago.org/



Charlot


Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, "The Pilgrim", que retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Chaplin nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cômicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada.
Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cômico, mas um trágico. Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula.
Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrise assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo. O caso é que, uma vez decidido que Chaplin é um actor cômico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos {sic}, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.

domingo, junho 13, 2010

É A VIDA, É A VIDA

Foto : Google


Eu os via toda semana num supermercado, empurrando o carrinho, ou de mãos dadas enquanto caminhavam para fazer as compras. Ele muito gordo, estatura mediana, o rosto sisudo que não irradiava simpatia, que parecia se acentuar pelo uso de óculos. Ela nem magra, nem gorda, mais alta do que ele, e, se a boca não estivesse sempre pronta para o riso, não tinha a expressão fechada do marido. Não formavam um casal bonito, mesmo, presumo, de quando jovens, mas a mulher, apesar da passagem dos anos, conservara o porte esbelto ao andar e uma certa elegância, que faltavam a ele. Caminhavam conversando em voz baixa e nunca percebi, mesmo discretamente, que estivessem discutindo por qualquer coisa.
E um dia o vi sozinho. Supus que ela ficara em casa, presa por alguma doença sem gravidade - uma gripe, ou um simples resfriado. Mas já estranhei quando na outra semana ele de novo apareceu sem a companhia da mulher. E assim se sucedeu pelas semanas seguintes.
Um dia, conversando com a minha mulher, soube que a senhora estava sofrendo do Mal de Alzheimer. E aqui preciso dizer que eles moram na rua que passa ao lado da minha. Pela janela do meu quarto muitas vezes vi o homem no portão da casa, barrigão nu, sozinho, ou conversando com alguém. Em diversas ocasiões vi o carro deles entrando ou saindo de casa. Em sua caminhada diária, minha mulher passa em frente da casa deles e quase sempre encontrava a empregada que lhes servia há anos sem conta. Dos cumprimentos iniciais passaram a ter um contato, pois a minha mulher cultiva muito bem a prática da conversa. Foi, portanto, através da empregada, que ela soube da enfermidade da senhora.
E então eu continuei a ver o homem solitário no supermercado, me parecendo ainda mais carrancudo. E, de repente, também ele deixou de aparecer. E pela minha mulher soube que ele estava muito doente (não me lembro de quê), foi internado e lá mesmo no hospital morreu.
E o que vejo hoje em dia da janela do meu quarto? A senhora, que via sempre ao lado do marido, andando com uma certa desenvoltura para a idade, só caminha um trecho da calçada de sua casa se amparada por uma enfermeira. E ontem a vi empurrada numa cadeira de rodas, ela que empurrava, sem dificuldade, o carrinho de compras. Não conhece os filhos, não conhece a velha empregada. Nem tem ideia de que o companheiro de quase toda uma vida partiu para sempre.

domingo, junho 06, 2010

15 FILMES COM UM GRANDE INÍCIO (2) *


O relógio sem ponteiros: uma das imagens do sonho do
velho professor, nos primeiros minutos de "Morangos
Silvestres".




- Laura (Otto Preminger)
- Morangos Silvestres (Ingmar Bergman)
- Matar ou Morrer (Fred Zinnemann)
- Hannah e Suas Irmãs (Woody Allen)
- Amarcord (Federico Fellini)
- Onde Começa o Inferno (Howard Hawks)
- Luzes da Cidade (Charles Chaplin)
- Festim Diabólico (Alfred Hitchcock)
- Eva (Joseph Losey)
- O Homem dos Olhos Frios (Anthony Mann)
- O Homem que Sabia Demais (Hitchcock)
- Manhattan (Allen)
- Domínio de Bárbaros (John Ford)
- Atlantic City (Louis Malle)
- O Trem (John Frankenheimer)

* Sem ordem preferencial.

domingo, maio 23, 2010

UMA MÚSICA PARA DOIS




Ela imediatamente se virou para o piano, quando soaram os primeiros acordes da música. Por um minuto, mais ou menos, permaneceu com o olhar enfocado no piano, depois voltou à posição inicial. Voltou também ao prato, que abandonara por aquele breve tempo. Ela também interrompera a conversa com o homem que a acompanhava. Parecia estar toda concentrada na música. E o homem, que devia ser o marido, pareceu respeitar o silêncio dela, pois não ousou lhe dizer uma só palavra até que a música parasse. E eu que não prestara atenção naquela mulher, que já almoçava quando eu me sentara à mesa, fui, de repente, tomado por uma junção de curiosidade e interesse por ela, a partir do momento em que a sua atenção foi despertada pela música. E o meu olhar se deteve naquele rosto, na tentativa de nele descobrir, por trás dos óculos e em meio a algumas rugas, a jovem que conheci há anos sem conta.
E por que foi a música que, ao envolver a mulher daquela maneira, me fez sentir um interesse súbito por ela? Antes preciso fazer uma revelação. Frequentava diariamente aquele centenário restaurante, com exceção dos sábados e domingos, desde que retornara à minha cidade após uma prolongada ausência por força da minha profissão. Por um mês, talvez nem isso, solicitei a música ao pianista. Decorrido esse tempo, certamente percebendo que me tornara um cliente habitual, ele passou a executá-la com a dispensa do meu pedido, pouco depois que ocupava a mesa reservada para mim.
E naquele dia, ao ouvi-la, e vendo aquela senhora partilhar da minha preferência pela música, me lembrei, de imediato, da jovem com quem tive um namoro mais ou menos duradouro. Ela, a garota, ela, a música, nunca saíram da minha mente em todos esses anos. Os dois a ouvimos no mesmo dia em que iniciamos o namoro.
Tínhamos ido ao Rex, na matinê dos domingos, assistir Suplício de Uma Saudade. Hoje não tenho mais saco pra encarar aquele melodrama, desde que o revi há uns dez anos; mas naquela tarde, ao lado de Loretta, emocionei-me com o romance entre William Holden e Jennifer Jones, tanto quanto a minha primeira namorada, embora, diferentemente dela, consegui resistir às lágrimas quando o filme terminou. Mas talvez como uma lembrança do nosso amor, iniciado com o filme, se não tenho mais disposição para vê-lo, continuo a gostar de sua música.
Parece que agora estou ouvindo Loretta cantar, a boca chiusa, trechos de Love is a many splendored thing, sentados num banco de uma pracinha, a mesma onde sempre nos encontrávamos: às vezes, assobiando-a. E depois cantando em português, quando foi lançada a versão em nosso idioma.
Mesmo depois de encerrada a execução de Love is a many splendored thing, ela permanecera calada, só falando para responder a alguma pergunta ao marido. Umas três ou quatro perguntas, que presumi que tinham a ver com a atitude da esposa.
Eu começara a refeição e só desviava a atenção da mulher quando baixava os olhos para o prato. Em uma dada ocasião, uma só vez, ela, ao se virar, como que se deu conta da minha presença, mas o olhar que me endereçou teve a duração de um flash. Pouco depois o marido se levantou para ir ao banheiro. Passou bem perto de mim e pude verificar que era bem mais velho do que supunha ao vê-lo da minha mesa. Observei-o informar-se do garçom sobre o banheiro e me lembrei da primeira vez que precisei usá-lo. Em vez do usual "Homens", ou "Cavalheiros", o banheiro masculino daquele restaurante exibe um retrato, numa pequena moldura oval, de um senhor de uma época antiga, vestido de paletó e usando um grosso bigode. Já no das mulheres há um retrato de uma senhora também de outros tempos e com o mesmo tipo de moldura.
Continuei com os olhos atentos na mulher, à espera de que a qualquer momento ela virasse o rosto para mim e, dessa vez, me fitasse. E num breve momento acreditei nessa possibilidade. Foi quando um pequenino pássaro surgiu, de forma inesperada, sem ninguém atinar em como tinha entrado ali. A avezinha ficou passeando por aquele pequeno espaço do salão, chamando a atenção de todos que estavam por perto. Até que um garçom se dispôs a apanhá-la, só o conseguindo depois de algum tempo. Os movimentos do homem, a corridinha em perseguição ao pássaro, que fugia ao pressentir a proximidade do homem, provocaram risos nas pessoas, inclusive nela. E o seu riso, a forma, me fizeram, num estalo, lembrar o de alguma pessoa. Não me era estranho aquele riso. Podia não ser o da jovem que namorei, mas de outra mulher que passara pela minha vida. Talvez até o de um amigo de um passado remoto. Impossível identificar. De todo modo, conhecia aquele riso. Foi quando acreditei que ela se virasse para mim, concedendo-me, além do olhar, um sorriso, como alguns presentes o fizera. Nada. A mulher não alterou a posição de todo o tempo enquanto permaneceu à mesa, com exceção da vez em que a música começou a tocar.
Mas a esperança (não dizem?) é a última que morre, e me vali dela para que, ao se levantar para ir embora, a mulher de novo me presenteasse com um olhar, ainda que rápido como uma piscadela. Nem isso. Ergueu-se e deixou a mesa pelo lado oposto ao em que me encontrava. Ao se afastar, atrás do marido, pude notar que era um pouco corcunda.

domingo, maio 16, 2010

PRESENÇA DE ESPÍRITO


Um irmão meu e o papai conversavam na antessala da nossa casa, quando surgiu na calçada uma amiga do meu irmão, Eliete, que vinha de uma visita a alguém que morava na nossa rua. Parou, falou alegremente com os dois, que se levantaram e foram ao encontro dela. Conversaram rapidamente, a moça estava com pressa, nem pôde atender ao convite para sentar um pouco. Quando ela já se despedia, o meu irmão se lembrou de um compromisso que assumira de comparecer a um evento, da qual a amiga participara, e disse, como se desculpando: "era para eu estar lá". Ao que ela disse, em cima da bucha, " mas não estalou". O papai soltou uma risada. E pelos anos a fora repetiu o fato, sempre revelando admiração pela presença de espírito de Eliete.
Há pessoas agraciadas com esse dom, que não tenho. Só muito raramente me acontece replicar algo que um amigo, ou um conhecido, diz de mim na presença de outras pessoas. Muito tempo depois é que me ocorre ter dado a resposta, mas aí Inês já está enterrada. A cantora Aracy de Almeida pertencia a essa categoria. Contam-se algumas histórias a respeito dessa sua presença de espírito, exposta, muitas vezes, de forma mal humorada. Gosto muito de uma dessas histórias. Aracy ia viajar para um compromisso profissional, se não me engano, para São Paulo. No aeroporto, de repente, desistiu da viagem e disse ao amigo, que a acompanharia, que estava com o pressentimento de que o avião iria cair. O amigo procurou dissuadi-la de que não ia acontecer nada de mau no voo, não havia razão pra ela se preoucupar. Aracy se manteve firme na decisão, até que o acompanhante, como último argumento, soltou esta: "Ora, Aracy, pode não ser hoje o dia de você morrer". E Aracy: "É, mas pode ser o dia do piloto".
Há uma de um humorista americano famoso. Não me lembro do nome dele. Estava jantando num restaurante em Nova York. Terminada e paga a refeição, ele se levanta e caminha para a saída. Estava um tanto triscado, pois apreciava um mé. Ao chegar à porta, com a vista prejudicada pela bebida, confundiu o traje de um cliente, que entrava, com o do porteiro. "Me arranje um táxi", ordenou ao homem. Este parou, olhou para o humorista com um ar superior e disse: "Senhor, eu sou um almirante". Resposta do humorista: "Então, me arranje um navio". Pano extremamete rápido, como dizia Millor "Vão Gogo" Fernandes" nos tempos da revista O Cruzeiro.

domingo, maio 09, 2010

MINHA MÃE



Fumando cachimbo
Pintando o cabelo
Pedalando na Singer

A missa diária
O terço noturno
(os joelhos tinham as marcas das rezas)
A cadeira de noite na calçada

O mesmo mel comendo
Os mesmos benditos entoando
O mesmo livro lendo

Batendo boca com meu pai.


NENÉM

Mãe, te chamavam de Neném
E hoje percebo que era teu nome real
Porque neném nunca deixaste de ser.



domingo, maio 02, 2010

A MEMÓRIA E SEUS MISTÉRIOS

Quadro " Persistência da Memória", de Salvador Dali.
Fonte: Google



A memória tem seus mistérios. Como explicar que, de repente, aflora em alguém a lembrança de algo que parecia estar inteiramente esquecido? Uma música que você ouvia na infância, no rádio, ou na amplificadora de sua cidade, e que, com a passagem dos anos, não mais a ouviu; uma pessoa, que se não foi sua amiga (às vezes até por uma grande diferença de idades), mas de todo modo fez parte da sua vida, de quem você não se lembra mais, e, como num piscar de olhos, "reaparece". Em relação a essas pessoas, a lembrança inesperada vem acompanhada de uma situação vivida por você e ela, quando não por uma palavra, ou uma expressão, usadas por ela, como se fossem um distintivo da sua personalidade. Assim como alguém carrega no rosto, ou em outra parte do corpo, a cicatriz de um acidente sofrido na infância, ou a de uma antiga cirurgia.
Uma manhã dessas, deitado, naquele estado em que um restinho de sono insiste em prender-nos à cama, lá dos escaninhos da memória assomou a figura de um colega já falecido. E "ouvi" a sua expressão: "É um arrombado". Ele era do Ceará, como eu, e no nosso Estado, a palavra tem a conotação de alguém que conseguiu algo importante, ou que é um sortudo. Minha mulher, também daquelas bandas, quando sabe que uma pessoa conhecida arranjou um bom emprego, ou melhorou de condição financeira, nunca deixa de dizer que "fulano (ou fulana) arrombou".
Já outro dia, também ainda não de todo desperto (curioso que essas lembranças geralmente ocorram nessa hora do dia), quem me surgiu foi aquela enfermeira. Talvez a lembrança inesperada daquela mulher tenha tido a ver com a necessidade de uma pequena cirurgia que terei que fazer. Estava com seis meses de casado quando tive que retirar as amígdalas. Enquanto aguardava a entrada para a sala de operações, ela apareceu. Vinha, parece, para avisar que o cirurgião não demoraria a chegar. E, ao invés de se retirar, ficou ali. E começou a conversar comigo. Conversas que nada tinham a ver com a operação. Até onde me lembro, tinha uma voz serena e suave. Não era nem bonita, nem feia. E a nossa conversa se desenvolveu, sem pausas, até o momento de eu ir para a outra sala. É possível que ela adotasse esse procedimento com todo paciente. É possível. Ou orientada, ou por espontânea vontade. Mas naquele momento, em que estava tenso pela primeira vez em que ia entrar na faca, isso em nada me importou, como continuo a não me importar, agora que, quase 40 anos decorridos, me lembrei daquela doce mulher que tinha o dom de passar tranquilidade. E nunca mais, em outras cirurgias a que tive de me submeter, encontrei outra enfermeira que agisse daquela maneira.
Minha memória, que você continue a me fazer essas surpresas. Mas, por favor, só as que tragam lembranças boas. As amargas, não, como diz o título do livro de memórias de Álvaro Moreyra.

domingo, abril 25, 2010

"As Corujas" - Conto de Moreira Campos (*)



Ele conversa muito consigo mesmo, repete-se, os olhos no chão e metido no dólmã de brim listrado, os pés redondos nas alpercatas. Resmunga, insistente. Fecha as janelas do velho necrotério. Apanha os pedaços de lona e, com eles, cobre os mortos sobre a lousa. Deixa-lhes apenas os pés de fora. A mulher sem chinelas, com sangue coagulado entre os dedos abertos; as grandes botas gastas e de cadarços do alemão andarilho, que amanheceu morto no oitão do armazém da praia, onde se alojara: o enorme saco e o livro de impressões, folheado por muitos dedos, foram recolhidos à delegacia. É preciso cobrir os mortos, proteger-lhes as cabeças. As corujas descem pela clarabóia. Têm voo brando, impressentido, num cair de asas leves, como num sopro de morte. De repente, dá-se conta de sua presença, das asas de pluma sem ruído. Alteiam-se e pousam sobre o peito dos mortos, arranhando-lhes os olhos parados, que fulgem na noite, divididos no meio.
- Xô, praga!
Os pedaços de lona ficam dobrados a um canto da sala escura, e ele os puxa sempre, curtos, deixando à mostra os pés inertes. Indispensável fazê-lo; depois fechar a luz triste da lâmpada, que desce pelo fio longo com teias de aranha. O facho da lâmpada de pilhas ainda percorre o teto de travejamento antigo. Crescem e oscilam as sombras: as botas de cadarço do alemão contra a parede - umas botas de muitas viagens. As corujas rasgam mortalha a noite toda na copa das altas árvores do terreno. O facho de luz tenta a densidade das folhas, corre cinzentos telhados, passa pela torre da capela, detém, ao longe, na janela de vidro do nosocômio. Em qualquer parte, na noite, estarão as corujas. Elas rasgam mortalha, agourentas, cortam o silêncio, sacudindo a vigília dos doentes. Recolhem-se, de dia, ao sótão da capela, onde pegam os ratos, que guincham nas suas garras. Necessário subir ao sótão, desfazer-lhes os ninhos. Falará com Irmã Jacinta, diretora do nosocômio, quando ela vier para a ala dos indigentes, ativa, tilintando as chaves no bolso do hábito. Ela mandará que Antero, jardineiro, trepe ao sótão. Ele é moço e divertido. Torcerá o pescoço das corujas, com os cabelos cheios de teia de aranha, e as atirará ao pátio do alto da torre, pilheriando com as enfermeiras. É preciso exterminar as malditas, que rasgam mortalha na noite, enquanto o facho de luz as procura na sombra densa das árvores:
- Xô, praga!
Resmunga, conversa sozinho, repete-se. Torna a experimentar as trancas das janelas, teima em ajeitar os pedaços de lona, que modelam saliências rígidas. O pedaço de lono do alemão ficou curto como uma camisa: têm presença apenas as botas. Resmunga. Se pudesse, ele próprio poria uma teia de arame na clarabóia. Já falou a Dr. Joca, que ele trata por você, porque foram criados juntos, e um xinga o outro. O bisturi do Joca corta sem pressa, profissionalmente. Luvas ensaguentadas, bigode branco amarelecido pelo fumo, ele apanha o cigarro com a boca no cinzeiro sobre o peitoril da janela. Secciona pedaços:
- Leva o balde.
O velho o recolhe, e conversa consigo mesmo, o corpo atarracado mal contido no dólmã de mescla.
Quando o homem que chegou do interior e se hospedou no quarto da pensão veio fazer velório ao corpo descarnado do filho, ele lhe deu a lâmpada de pilhas e o advertiu para as corujas. Elas desciam pela clarabóia, mesmo com a luz da lâmpada. Era preciso manter as velas acesas nos castiçais. Só assim as desgraçadas não vinham: temiam queimar as asas nas chamas. Ficavam rasgando mortalha no alto das velhas árvores ou na torre da capela. Sem a presença das velas, elas surgem sempre, impressentidas, como num sopro de mort: alteiam-se leves, pousam sobre o peito dos mortos e com o bico arranham-lhes os olhos, que fulgem parados e indefesos na noite.

(*) O cearense José Maria MOREIRA CAMPOS (1914-1994) é considerado um dos melhores contistas brasileiros. Alguns de seus contos estão traduzidos para o inglês, o francês, o italiano, o espanhol e o alemão. Publicou sete livros de contos: Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Veem Coisas (1987). E o livro de poesia, Momentos, de 1976.

- Este conto faz parte da coletânea Contos Escolhidos de Moreira Campos, edição da Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 1971.



domingo, abril 18, 2010

CINE CANINDÉ

Foto de uma sessão do Cine Canindé.
Fonte: kanindecultural.jmdo.com/



Ficava na praça da Basílica (o nome legítimo da praça não lembro, mas era por essa denominação que ela era conhecida). Do lado esquerdo, a duas casas da esquina, onde ficava o bar do Seu Zuil, administrado pelo irmão Nenen. Cine Canindé. Ali começou o meu amor pelo cinema, vendo seriados, banguebangues, Jim das Selvas (com o ex-Tarzan Johnny Weissmuller) e outros gêneros de filme. E me deparei, nas sessões de quarta (ou quinta), sábado e domingo com alguns espectadores curiosos. Uns chatos, como aquele que via o filme lendo as legendas em voz audível , nem sempre usando a pronúncia certa das palavras, como quando dizia dolares. Havia a senhora que morava na casa vizinha e entrava no cinema com o soar do gongo, conduzindo uma cadeira. Alguns que sempre ocupavam a mesma cadeira. E vez por outra um menino tinha visto o filme em Fortaleza, e, ao revê-lo no nosso cinemazinho (provavelmente como uma forma de gabolice por ter conhecido um cinema da capital), antecipava o que ia acontecer numa cena.
Nos créditos da maioria dos filmes aparecia o nome de João Branco, como o responsável pelas legendas. Esse nome era uma garantia para os meninos da boa qualidade do filme. Ah, a ingenuidade, a inocência infantis que os adultos perdem e, por vezes, lhes fazem tanta falta!
A figura mais curiosa, no entanto, do Cine Canindé era o seu proprietário, César Campos. O homem mais rico da cidade. Além do cinema, possuía a melhor loja de Canindé, um posto de gasolina, um bar-restaurante, fazenda, imóveis. Antes de começar a sessão, ficava na escada que dava acesso à sala de projeção. Sozinho, olhando para frente, talvez pensando em negócios. Numa hora invariável da manhã, vinha caminhando da loja até sua casa, que ficava depois da nossa, para almoçar. Caminhava pelo meio da rua, sem cumprimentar ninguém. Talvez um ou outro conhecido, com um leve balançar de cabeça. As pessoas o tinham por orgulhoso, mas hoje creio que não o era. Esquisitão, sim. Ou tímido.
Sua parca comunicabilidade causou, nos primeiros tempos de casado, um sério incômodo em Dona Julinha. Ela chegou a se queixar a um irmão e sócio de César na loja, pedindo-lhe ajuda. (Chico Campos era um antípoda de César. Comunicativo, espirituoso e de uma cortante ironia para com os desafetos.) Chico atendeu ao pedido da cunhada e parece que, depois da conversa que tiveram, o comportamento de César com a esposa melhorou.
Mas, apesar do seu jeitão, César tinha alguns amigos, entre os quais o meu pai, que sempre falava bem dele (no futuro ocorreria um estremecimento nas relações entre os dois, acho que por questão de negócios), até revelando uma faceta insuspeitada do seu temperamento: o senso de humor. Ele tinha um amigo que nascera aqui em Natal, mas chegara a Canindé vindo de outra cidade do Ceará, com o qual ia toda tarde tomar cerveja no bar do Maciel. Sempre a uma determinada hora, como ocorria quando vinha para casa almoçar.
Enquanto morei em Canindé, nunca recebi um cumprimento dele. Tudo bem, era uma criança e se César não cumprimentava a maioria dos habitantes adultos, não iria fazê-lo com uma criança, ainda que fosse filha de um dos seus poucos amigos. Mas o Chico, por exemplo, me cumprimentava e muitos outros homens também.
Mas uma noite, eu já estudando em Fortaleza, entrei numa farmácia, e qual não foi o meu espanto ao encontrar ali o César. Usava um terno (branco, se não me engano), e talvez tivesse vindo de um cinema. Ou indo. Estava recostado ao balcão, esperando Dona Julinha ser atendida. Ao me ver, balançou a cabeça e esboçou um sorriso.